
Esta não é a nossa guerra; não fomos nós que a iniciamos”, declarou o ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, na manhã de segunda-feira. Segundo ele, Berlim continua a privilegiar soluções diplomáticas, e “o envio de mais navios de guerra para a região provavelmente não contribuiria para esse objetivo”.
À medida que a guerra liderada pelo presidente Donald Trump contra o Irã entra em sua terceira semana, líderes europeus se veem diante de um dilema. De um lado, as exigências cada vez mais enfáticas de Washington para que contribuam com a reabertura do Estreito de Ormuz; de outro, a profunda relutância em se envolver em um conflito desencadeado pelos Estados Unidos.
Segundo reportagem do New York Times desta segunda (16), diversos dirigentes reagiram com inquietação e apreensão às críticas de Trump sobre a suposta inação europeia. Alguns rejeitaram explicitamente o apelo para que suas marinhas sejam enviadas à zona de risco, mesmo quando a guerra, liderada por Estados Unidos e Israel, continua pressionando os preços globais da energia.
Autoridades europeias demonstraram irritação diante da advertência feita por Trump, em entrevista no domingo (12), segundo a qual “será muito ruim para o futuro da OTAN” se os países europeus não se unirem aos Estados Unidos no esforço para reabrir essa rota marítima estratégica, por onde transitam petroleiros carregados de petróleo, gás e fertilizantes.
Na Europa, o discurso foi diferente. “Esta não é a nossa guerra; não fomos nós que a iniciamos”, declarou o ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, na manhã de segunda-feira. Segundo ele, Berlim continua a privilegiar soluções diplomáticas, e “o envio de mais navios de guerra para a região provavelmente não contribuiria para esse objetivo”.
O Ministério das Relações Exteriores da França informou nas redes sociais que sua marinha permanecerá no Mediterrâneo Oriental. “Nossa postura permanece inalterada: trata-se de uma presença defensiva”, afirmou.
O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, declarou em coletiva de imprensa que seu país “não será arrastado para uma guerra mais ampla” contra o Irã. “Minha liderança consiste em defender firmemente o interesse britânico, independentemente de pressões”, afirmou Starmer, sem mencionar diretamente as declarações de Trump. Ele acrescentou que autoridades britânicas trabalham com “todos os nossos aliados, inclusive nossos parceiros europeus”, para avaliar o que pode ser feito coletivamente a fim de reabrir o Estreito.
As pressões econômicas sobre os governos europeus são concretas. Os preços da gasolina e do óleo para aquecimento já registram forte alta, enquanto eleitores manifestam crescente preocupação com o impacto direto em seus orçamentos domésticos.
Ao mesmo tempo, muitos líderes europeus experimentam uma sensação de déjà vu, relata o Times. A última vez em que um presidente estadunidense convocou aliados para mobilizar forças no Oriente Médio permanece viva na memória política do continente. Em grande parte da Europa, a invasão do Iraque em 2003, conduzida pelo então presidente George W. Bush, é amplamente vista como um erro estratégico custoso, motivado por informações de inteligência falhas.
No conflito atual, os riscos voltam a ser elevados. Permanecer à margem pode significar assistir à escalada dos preços da energia, comprometendo perspectivas de crescimento econômico e alimentando o descontentamento social. Por outro lado, aderir à operação militar implicaria aceitar o risco de perdas humanas e de um envolvimento cada vez mais profundo contra o Irã e seus aliados armados na região.
A pressão de Trump também se baseia em uma crítica recorrente: a de que os países da OTAN contribuem pouco para sua própria defesa. A bordo do avião presidencial, o Air Force One, no domingo, ele afirmou a jornalistas que “será interessante ver qual país se recusará a nos ajudar em um esforço tão pequeno”.
O general britânico aposentado Nick Carter, ex-chefe do Estado-Maior da Defesa do Reino Unido, afirmou em entrevista à BBC que seria inadequado que forças da OTAN participassem da guerra conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã. “A OTAN foi criada como uma aliança defensiva, e todos os seus dispositivos institucionais são essencialmente orientados para a defesa”, afirmou. “Ela não foi concebida para que um de seus membros decida entrar em guerra por iniciativa própria e depois espere que todos os demais o acompanhem.”
Starmer, que tem sido repetidamente criticado por Trump por não participar do ataque inicial contra o Irã, reiterou esse ponto em sua coletiva de imprensa. “Quero ser claro: isso não é — e nunca foi — concebido como uma missão da OTAN”, declarou.
O ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, também tratou de reduzir expectativas quanto a um eventual envolvimento da marinha italiana na proteção de petroleiros no Estreito de Ormuz. Uma fragata de mísseis italiana integra atualmente um grupo naval aliado que acompanha o porta-aviões da França, mas até o momento suas operações permanecem restritas ao Mediterrâneo Oriental.
“Não estamos envolvidos em operações militares no Estreito de Ormuz”, afirmou Tajani ao telejornal italiano TG4 no domingo.
Na segunda-feira, o ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radoslaw Sikorski, afirmou que o governo polonês também descartou o envio de forças para o conflito contra o Irã.
Quanto à situação em Ormuz, declarou ele em Bruxelas, “não houve ainda qualquer discussão dentro do governo sobre esse assunto”. Sikorski acrescentou considerar “preocupante” o fato de Trump referir-se à OTAN como “eles” ou “Europa”, em vez de “nós”. “Existem procedimentos institucionais estabelecidos”, afirmou. “Pelo que entendi, eles ainda não foram sequer acionados dentro da Aliança.”





