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“Pastor talarico” vira alvo da PF por esquema de desvios milionários

O relatório policial aponta o pastor Manoel Pereira Xavier, vice-presidente da ADEB, e sua mulher, Maria Marta Xavier, como responsáveis pela gestão de fato da associação. Ele ficou conhecido como “talarico” após ser flagrado, em 2024, saindo de um motel...

“Pastor talarico” vira alvo da PF por esquema de desvios milionários

A organização administrou creches públicas no Distrito Federal e recebeu cerca de R$ 117 milhões em contratos com a Secretaria de Educação entre 2012 e 2025

A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU) investigam a Associação Beneficente Evangélica (ABE) e três pastores ligados à entidade por suspeitas de desvio de recursos públicos. A organização administrou creches públicas no Distrito Federal e recebeu cerca de R$ 117 milhões em contratos com a Secretaria de Educação entre 2012 e 2025, segundo o Metrópoles.

O inquérito apura se a ABE usou diretores formais, empresas de fachada e contratações de familiares para movimentar recursos de parcerias públicas. A investigação começou em maio de 2025, após uma denúncia anônima, e ainda não definiu qual parcela dos valores está sob suspeita de uso irregular.

Fundada em 1984 pela Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Brasília (ADEB), a associação tem sede em Samambaia e 18 filiais no DF. O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios e o Tribunal de Contas do DF já haviam apontado irregularidades nas prestações de contas da entidade em 2024 e 2025.

O relatório policial aponta o pastor Manoel Pereira Xavier, vice-presidente da ADEB, e sua mulher, Maria Marta Xavier, como responsáveis pela gestão de fato da associação. Ele ficou conhecido como “talarico” após ser flagrado, em 2024, saindo de um motel com uma fiel da igreja.

A sede da Associação Beneficente Evangélica, em Samambaia Sul. Foto: Reprodução

Convênios federais e suspeita de repasses a papelaria

A ABE também recebeu R$ 850 mil em dois convênios assinados em 2024 com os ministérios da Cultura e do Trabalho e Emprego. Os recursos deveriam financiar capacitação e projetos culturais, mas a PF identificou suspeita de que mais de R$ 420 mil seguiram para uma papelaria de Taguatinga.

A empresa Bras Gel, administrada por Poliana Rodrigues Lopes Xavier, nora de Manoel e Maria Marta, teria alterado sua atividade secundária para incluir ensino de música. A investigação apura se a mudança serviu para viabilizar pagamentos do convênio sem a prestação adequada dos serviços previstos.

Filhos, noras e sobrinhas do casal aparecem, segundo a PF, em cargos da associação, folhas de pagamento de convênios e empresas contratadas pela entidade. Maria Marta é apontada como diretora financeira e pedagógica e teria recebido R$ 96 mil diretamente em sua conta pessoal, valor que integra as apurações.

Além das suspeitas nas contratações, a PF encontrou indícios de gastos desproporcionais com combustíveis, movimentação de dinheiro em espécie, diferenças salariais e demissões seguidas de recontratações no fim de cada ano. A prática teria buscado reduzir encargos trabalhistas e direitos de funcionários.

Entre 2018 e 2023, a ABE acumulou dívida ativa de R$ 9,57 milhões com a União, apesar dos recursos recebidos em contratos públicos. A entidade também responde a processos trabalhistas, enquanto a PF e a CGU avançam com quebras de sigilo, relatórios financeiros e diligências.

A Secretaria de Educação do DF afirmou que acompanha as prestações de contas das parcerias e tratará eventuais inconsistências pelos procedimentos administrativos cabíveis. O Ministério do Trabalho disse não ter recebido comunicação oficial sobre o inquérito, e o Ministério da Cultura informou que analisará a prestação de contas de um convênio vigente até fevereiro de 2025.