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Caprichoso brilha no bumbódromo com toada polêmica, crítica à ditadura militar e abertura da apresentação com “Cálice”

Na arte de levar para o Brasil e para o Mundo o folclore do boi bumbá de Parintins, não só através da beleza da cunhã Poranga e   simpatia da sinhazinha da fazenda mas, também, o compromisso na preservação da Amazônia...

Caprichoso brilha no bumbódromo com toada polêmica, crítica  à ditadura militar e abertura da apresentação com "Cálice"

A toada foi dura com a ditadura militar e com os miliares. Durante a apresentação, sons de avião, que se misturavam ao coro vibrante  da galera azul e branco, reviveu os momentos mais obscuros da democracia brasileira.

O bumbá Caprichoso foi apoteótico, vibrante, mágico, delirante, brilhou e encantou em todas as apresentações do 58º Festival Folclórico de Parintins.

Na sua segunda apresentação, o representante da nação azul e branco homenageou Chico Mendes – líder seringueiro morto em Xapuri (AC) – agitou o bumbódromo com a polêmica toada “Os fuzis e as flechas”, e com os versos de “Cálice”, símbolo máximo da resistência e protesto ao regime autoritário de 64, composta por Chico Buarque e Gilberto Gil.

Brilhou na escolha do tema “Kaá-eté – Retomada pela Vida”, na apresentação monumental de suas alegorias, que impressionaram pela grandiosidade criativa e realismo de seus personagens, na lenda de Waurãga, entidade protetora da floresta que comanda os Kãkãnemas — espíritos da mata que se manifestam através dos animais da Amazônia, enfim…o Caprichoso foi Oconcur.

Na arte de levar para o Brasil e para o Mundo o folclore do boi bumbá de Parintins, não só através da beleza da cunhã Poranga e   simpatia da sinhazinha da fazenda mas, também, o compromisso na preservação da Amazônia e dos Povos Originários, não poderia faltar a coragem de escancarar as contradições do Brasil verde e amarelo nos versos da toada “Os fuzis e as flechas”.

Inspirada na obra do jornalista Rubens Valente, os versos  denúncia os massacres indígenas no período de ditadura militar no Brasil (1964-1985) por ocasião da abertura da BR-174, no Amazonas, e Paralelo 11, no Mato Grosso.

No Amazonas foram dizimados 2.650 Waimiri Atroari e no Mato Grosso 3,5 mil membros do povo indígena cinta-larga.

Na segunda noite de apresentação do boi bumbá, os protestos se fizeram mais claros e diretos. O silêncio que reinava absoluto no bumbódromo foi rompido com o ressoar cadenciado  dos tambores e com os versos “Pai, afasta de mim esse cálice,  afasta de mim esse cálice, de vinho tinto de sangue”, ecoados em uníssono.

A toada foi dura com a ditadura militar e com os miliares. Durante a apresentação, sons de avião, que se misturavam ao coro vibrante  da galera azul e branco, reviveu os momentos mais obscuros da democracia brasileira.

Céu de gota de veneno
Gotejante sobre a aldeia
Corvo de asas de prata
174, 11 o Paralelo

Além dos massacres dos Waimiri Atroari e do cinta-larga, Fuzis e flexas faz alusão aos políticos desaparecidos durante o regime, à exemplo de Rubens Paiva, que não é citado na composição toada.

Presos, torturados, exilados
Mortos por fome e por sede
Tiros e balas, jogados em valas
Opressão no Brasil, meu povo sucumbiu

“Os fuzis e as flechas” é uma investigação jornalística de autoria de Rubens Valente que descreve centenas de mortes de indígenas durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985). Durante um ano, o autor entrevistou oitenta pessoas, entre indígenas, sertanistas, missionários e indigenistas, percorreu 14 mil quilômetros de carro, esteve em dez estados e dez aldeias indígenas do Amazonas, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.