
Madame Satã passou 27 anos e 8 meses preso, de forma intercalada, entre 1928 e 1965 — boa parte desse período em um presídio na Ilha Grande, onde escolheu viver os últimos anos de sua vida.
O túmulo de João Francisco dos Santos, conhecido como Madame Satã, pode se tornar o primeiro patrimônio LGBTQIA+ tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
O corpo do artista, que marcou a boêmia da Lapa no século passado, está sepultado no cemitério da Vila do Abraão, na Ilha Grande, em Angra dos Reis, na Costa Verde do Rio.
O pedido de tombamento foi feito pelo pesquisador Baltazar de Almeida, que considera a iniciativa um passo importante para reduzir o apagamento histórico de figuras ligadas ao movimento no Brasil.
Morador de Angra dos Reis, Baltazar de Almeida descobriu a ligação de Madame Satã com o território enquanto fazia pesquisas para um roteiro turístico desenvolvido para a startup que está lançando. Ativista do movimento negro e LGBTQIA+, ele cursa Turismo na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), na modalidade de ensino à distância.

“A questão do resgate de memória me encanta muito, esse saber e voltar ao passado. Então eu juntei Madame Satã, Ilha Grande, o corpo que ainda não foi exumado e fui montando esse argumento para o Iphan”, explica Baltazar.
“Para mim, Baltazar, é honrar uma história de uma pessoa que hoje parece ser próxima a mim, mas eu nem conheci. Eu sou de religião de matrizes africanas e acho que vem daí esse sentimento, tenho uma malandragem muito forte na minha linha e sinto essa conexão”, afirma Baltazar de Almeida.
Para formalizar o pedido, Baltazar realizou uma ampla pesquisa sobre a vida e importância cultural de Madame Satã. A solicitação foi aceita, e o Iphan já iniciou os estudos técnicos no local. O processo de tombamento envolve várias etapas e pode durar até 5 anos. Uma primeira visita ao túmulo já foi feita por técnicos do instituto.
“A instrução de tombamento é um procedimento longo e criterioso, que envolve a elaboração de estudos técnicos, emissão de pareceres, realização de consulta pública e, por fim, a votação pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, órgão colegiado de decisão máxima do Iphan para assuntos relacionados ao patrimônio cultural material e imaterial”, explicou o instituto em nota
Na internet, um abaixo-assinado já reúne mais de 800 assinaturas em apoio ao pedido de tombamento. Para o pesquisador, a ausência de qualquer bem ligado à história LGBTQIA+ reconhecido oficialmente no Brasil é resultado de uma herança da homofobia.
“Algumas histórias são lembradas e outras esquecidas ou apagadas. E quem são essas histórias que geralmente são nomes de rua, nomes de patrimônio e quais são as histórias que não têm esse local?”, questiona Baltazar.





