Em entrevista ao programa “Bom dia, ministro”, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou que o acordo entre Mercosul e União Europeia — após mais de duas décadas de negociação — tende a ampliar exportações, atrair investimentos e impulsionar emprego e renda, além de reforçar compromissos de sustentabilidade em um cenário internacional marcado por protecionismo e instabilidade geopolítica.
Segundo Alckmin, o tratado reúne um mercado de 720 milhões de pessoas e PIB de cerca de 22 trilhões de dólares, tornando-se “o maior acordo entre blocos do mundo”. Para ele, a assinatura representa também uma mensagem política: “É um exemplo pro mundo… que é possível, através do diálogo e da negociação você fortalecer o multilateralismo e você ter livre comércio”.
Ao detalhar o impacto econômico, Alckmin disse que o acordo significa “comércio”, com redução de tarifas e regras que, em sua visão, beneficiam consumidores e empresas. “Zera a tarifa. Então você tem livre comércio, mas livre comércio com regras”, afirmou.
O vice-presidente sustentou que a abertura tende a fortalecer agronegócio, indústria e serviços, com efeito direto sobre empregos. “Comércio exterior hoje é emprego na veia”, declarou, citando a Embraer como exemplo de empresa que depende do mercado externo para ganhar escala: “A Embraer é hoje a terceira maior indústria do mundo porque exporta pros cinco continentes”.
Na indústria, Alckmin lembrou que o bloco europeu é um destino relevante para manufaturados brasileiros. “No caso da indústria, primeiro Estados Unidos e depois a União Europeia”, afirmou, ao defender que o pacto ajuda a reposicionar a indústria nacional em cadeias globais.
Alckmin relatou que, entre os 27 países europeus, 21 votaram a favor, houve uma abstenção da Bélgica e cinco votos contrários, observando que “é muito difícil você ter unanimidade”.
Ele atribuiu a conclusão da negociação à condução política do presidente Lula. “Sua liderança e a sua perseverança foi fundamental para um acordo que há 25 anos é trabalhado, mas nunca saía”, afirmou, defendendo que o tratado pode entrar em vigor após tramitações legislativas, com internalização no Brasil.
Ao abordar as relações com os Estados Unidos, Alckmin disse que o país é o terceiro parceiro comercial do Brasil e importante para exportações de maior valor agregado. Ele afirmou que o Brasil foi “surpreendido” por um tarifaço e questionou sua justificativa, destacando que a tarifa média brasileira para produtos americanos seria de 2,7%, com vários itens em regime de exceção.
O vice-presidente também argumentou que, no G20, os Estados Unidos teriam superávit com apenas três países, incluindo o Brasil. “Brasil não é problema”, disse, afirmando que a orientação do presidente Lula tem sido “diálogo e negociação”.
Alckmin descreveu uma estratégia gradual de redução do impacto do tarifaço e citou exemplos de produtos que teriam sido retirados de medidas mais duras ao longo das conversas. “O que nós queremos… é um ganha ganha”, afirmou, dizendo que o acordo com a União Europeia não interfere nessas tratativas: “Eu diria que não, porque são coisas distintas”.
m perguntas de rádios e portais, o tema Irã surgiu como parte do cenário de tensões internacionais. Alckmin afirmou que não havia, até então, “ordem executiva” definindo detalhes de eventual taxação vinculada a relações comerciais com o país, e avaliou que o Irã tem participação pequena no comércio exterior brasileiro.
Questionado sobre a escalada de crises e riscos de guerra, Alckmin defendeu que o Brasil deve atuar como país que promove a paz e o multilateralismo. “O Brasil é um país de paz… O que nós queremos é paz. Guerra leva a morte, leva a pobreza, é a falência da boa política”, afirmou.
Ele também defendeu princípios como respeito ao direito internacional e à democracia. Ao citar o jurista Sobral Pinto, declarou: “A ditadura é a apoteose da violência e é uma coisa inaceitável… Ela deve ser combatida em todo lugar, seja de esquerda ou seja de direita”.
Alckmin afirmou que o Brasil alcançou recorde de exportações em 2025, com US$ 348,7 bilhões, e corrente de comércio de US$ 629 bilhões, mesmo em um ano marcado por tensões tarifárias. Ele atribuiu o desempenho à diversificação e abertura de mercados. “Abriu e conquistou novos mercados”, disse.
O vice-presidente defendeu que o país reduza a concentração de exportações em grandes empresas e anunciou o programa Acredita Exportação, voltado a micro e pequenas empresas. “O governo deposita 3,1% do valor exportado de crédito tributário, 3,1%”, afirmou, citando apoio da ApexBrasil na capacitação.
No debate sobre competitividade, Alckmin chamou a reforma tributária de “eficiência econômica, aguardada há 40 anos”, destacando a unificação de tributos sobre consumo e a redução do chamado custo Brasil. Ele descreveu o sistema atual como complexo, citando a multiplicidade de regras do ICMS e do ISS.
O vice-presidente explicou que 2026 seria um período de testes do novo sistema, com implantação gradual e transição até 2032. Ele também citou estimativas de impacto para exportações, investimentos e PIB em horizonte de 15 anos, atribuindo os números a estudo mencionado por ele.
Ao falar de Mato Grosso, Alckmin defendeu agregar valor ao agro por meio de agroindústria e citou a elevação do percentual de biodiesel no diesel, que teria chegado a 15%, e o aumento do teor de etanol na gasolina para 30%, destacando o papel do Brasil na descarbonização e a força da frota flex.
Ele reforçou que logística é central para competitividade e mencionou projetos no Norte. Sobre o modal hidroviário, citou o Pedral do Lourenço, na região de Tucuruí, defendendo obras condicionadas a licenciamento ambiental. Na ferrovia, afirmou que é necessário avançar na Ferrogrão, para escoar produção do Centro-Oeste até o Pará.
Em resposta sobre estradas e transporte, Alckmin apresentou o Mov Brasil (MV Brasil) como política para renovar frota de caminhões, citando queda nos juros para financiamento e defendendo ganhos ambientais e de segurança. “Um caminhão desses novos Euro6 ele polui 40 vezes menos que um caminhão com mais de 20 anos”, afirmou, destacando que caminhões novos e seminovos podem ser financiados.
Sobre a dívida de Minas Gerais e propostas envolvendo participação na Codemig, Alckmin revisitou renegociações passadas e afirmou que novos mecanismos podem reduzir juros e aliviar contas estaduais. Em relação a minerais estratégicos, disse: “O Brasil tem a segunda reserva do mundo” de terras raras e que é preciso investir mais em mapeamento geológico, destacando o potencial mineiro.
Ele citou nióbio e lítio, mencionando produção no Vale do Jequitinhonha e a relevância do carbonato de lítio para baterias.
Ao comentar a indústria automobilística, Alckmin afirmou que o governo zerou o IPI do “carro sustentável” até 31 de dezembro, descrevendo exigências como ser carro de entrada, fabricado no Brasil, flex, limites de emissões e critérios de reciclabilidade. Ele listou modelos e montadoras que, segundo ele, atendem aos requisitos, e afirmou que a combinação de crédito, marco de garantias e redução de custos impulsionou vendas.
No encerramento, Alckmin voltou ao acordo Mercosul–União Europeia como vetor de “desburocratização”, investimentos e sustentabilidade. Ele citou metas apresentadas pelo Brasil na COP 29 e reforçou compromissos com redução de emissões. Também destacou a centralidade da Amazônia e mencionou o lançamento do TFF, descrito por ele como um fundo privado de investimento para florestas.
“O acordo Mercosul–União Europeia… confirma… fortalece os compromissos do Brasil com a sustentabilidade e o combate às mudanças climáticas”, disse, ao alertar para o aquecimento global e defender redução de emissões como dever coletivo.





