
Ao falar sobre sua convivência com Lula, ele afirmou que o trabalho público o atrai justamente por não estar a serviço do enriquecimento privado, mas da sociedade como um todo.
O vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou estar plenamente satisfeito com sua atuação no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e destacou o ambiente de confiança que marca sua relação com o chefe do Executivo.
Em entrevista ao programa Na Mesa com Datena, da TV Brasil, reproduzida no YouTube, Alckmin resumiu seu momento político e institucional ao afirmar que está “muito feliz sendo vice-presidente do presidente Lula”, ressaltando ainda que o presidente lhe dá “total liberdade” no exercício de suas funções e jamais impôs limitações à sua atuação.
Ao longo da conversa, cuja fonte original é a entrevista concedida por Alckmin a Datena na estreia do programa, o vice-presidente combinou avaliação política, defesa da política industrial do governo e comentários sobre o cenário internacional. Sem confirmar qual será seu papel nas eleições de 2026, ele confirmou que deixará o ministério no início de abril para cumprir a legislação eleitoral, mas evitou vincular essa saída a qualquer candidatura específica, afirmando que a definição sobre o futuro será feita “mais à frente”.
Alckmin apresentou a experiência no atual governo como uma continuidade de sua trajetória na vida pública e disse que segue motivado pelo sentido coletivo do trabalho político. Ao falar sobre sua convivência com Lula, ele afirmou que o trabalho público o atrai justamente por não estar a serviço do enriquecimento privado, mas da sociedade como um todo. Na mesma linha, recordou sua passagem pela prefeitura de Pindamonhangaba, pelo governo de São Paulo e pelas campanhas presidenciais para sustentar que continua vendo na política uma forma de contribuir diretamente com o país.
O vice-presidente também aproveitou a entrevista para reiterar a centralidade da reindustrialização no projeto do governo. Segundo ele, a Nova Indústria Brasil representa o esforço estratégico de reconstruir a capacidade produtiva do país com base em inovação, sustentabilidade, produtividade e ampliação das exportações. Ao explicar o raciocínio, Alckmin recorreu a uma comparação didática: disse que um quilo de carne de porco custa em torno de R$ 25 ou R$ 28, mas que uma válvula aórtica feita a partir do pericárdio do porco pode chegar a R$ 70 mil, argumentando que essa diferença expressa justamente o papel da indústria e da tecnologia na agregação de valor.
O ministro também apontou os gargalos estruturais que dificultam a competitividade brasileira no cenário internacional. Ao comparar o ambiente de negócios nacional com o de países asiáticos, afirmou que China e Índia têm juros muito mais baixos, carga tributária inferior e escala produtiva muito superior, o que barateia seus custos e amplia a presença desses países no comércio mundial. Segundo ele, a China, sozinha, responde por metade da produção mundial de aço, o que ajuda a dimensionar o tamanho do desafio enfrentado pela indústria brasileira.
Para enfrentar esse quadro, Alckmin destacou medidas de estímulo à inovação e à modernização fabril. Citou, entre elas, a redução do prazo para concessão de patentes pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial. Segundo ele, o INPI levava sete anos para registrar uma patente, mas esse tempo vem sendo gradualmente reduzido e a meta é chegar a dois anos, padrão que classificou como internacional. Também mencionou programas de depreciação acelerada para renovação de máquinas, observando que a média de idade do maquinário industrial brasileiro é de 15 anos, o que compromete produtividade e competitividade.
No campo da sustentabilidade, Alckmin sustentou que o Brasil já possui vantagens importantes. Ele lembrou que o país mistura 30% de etanol na gasolina, utiliza 15% de biodiesel no diesel e tem uma frota majoritariamente flex, além de ver crescer o segmento de carros híbridos. Para ele, essas características colocam o país em posição privilegiada numa transição energética global em que indústria, inovação e meio ambiente tendem a caminhar juntos.
A entrevista também avançou sobre o impacto dos conflitos internacionais na economia. Alckmin concordou com a avaliação de que o mundo vive uma conjuntura marcada por vários conflitos simultâneos e disse que, em maior ou menor grau, todos os países acabam sendo prejudicados. Ressaltou, porém, que o Brasil tende a sofrer menos do que outras regiões porque seus principais parceiros comerciais — como China, União Europeia, Argentina e Estados Unidos — não estão diretamente concentrados nas áreas mais afetadas pelas guerras. Ainda assim, alertou para o efeito imediato da alta do petróleo sobre gasolina e diesel e para a vulnerabilidade brasileira no mercado de fertilizantes, já que o país ainda depende fortemente da importação de NPK.
Ao tratar da guerra entre Rússia e Ucrânia, Alckmin afirmou que a posição brasileira está correta ao sustentar que nada justifica a invasão de um país por outro. Em relação à Venezuela, declarou que o Brasil nunca reconheceu o resultado da eleição venezuelana, mas ponderou que isso não torna razoável qualquer violação da soberania daquele país. A partir desses exemplos, defendeu o fortalecimento de instituições multilaterais, como a ONU e a Organização Mundial do Comércio, argumentando que esses mecanismos foram concebidos justamente para evitar guerras e organizar regras de convivência entre as nações.
No trecho em que falou sobre as relações com os Estados Unidos, Alckmin relatou que teve interlocução direta com o secretário de Comércio, Howard Lutnick, além de outros representantes do governo norte-americano, em meio às tensões geradas pelo tarifaço promovido por Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos. Segundo ele, o Brasil questionou as tarifas elevadas impostas pelos EUA, lembrando que a tarifa média brasileira para produtos norte-americanos é de apenas 2,7%. Para Alckmin, não fazia sentido exigir reciprocidade com taxas tão altas quando a maior parte dos produtos americanos entra no Brasil sem imposto.
Alckmin citou ainda possíveis pontos de convergência com os Estados Unidos em futuras negociações, como minerais estratégicos, terras raras, data centers e energia. Ao comentar uma eventual reunião entre Lula e Trump, afirmou que, segundo o presidente brasileiro, “não há tema proibido” e que o governo está aberto ao diálogo e à negociação.
Na parte da entrevista dedicada à crise financeira envolvendo o Banco Master, o vice-presidente defendeu investigação rigorosa e punição severa. Ele disse que o caso não surgiu de um dia para o outro e sustentou que já está claro haver suspeitas envolvendo pessoas do próprio sistema de fiscalização, inclusive dentro do Banco Central. Ao chamar atenção para a dimensão do escândalo, afirmou que “não é milhão” o que desapareceu, mas “59 bilhões”, e questionou onde esse dinheiro foi parar. Também observou que o episódio revela falhas graves de controle e reforçou a necessidade de aprimorar mecanismos de supervisão no sistema financeiro.
Alckmin negou que o governo esteja tentando limitar as investigações e afirmou que o presidente Lula tem sido claro ao não poupar ninguém. Segundo ele, a Polícia Federal, o Ministério Público e o Poder Judiciário precisam ter liberdade total para apurar, punir e corrigir as fragilidades institucionais expostas pelo caso. Em sua visão, esse é justamente o sentido da democracia: transparência, clareza e a certeza de que ninguém está acima da lei.
Ao falar sobre segurança pública, Alckmin defendeu endurecimento contra o crime organizado e maior atenção às estruturas de lavagem de dinheiro. Disse que não basta prender operadores de menor escala e que é indispensável atingir a cúpula das facções, seguir o rastro do dinheiro e atacar os mecanismos financeiros que sustentam o crime. Citando experiências de sua gestão em São Paulo, mencionou o regime disciplinar diferenciado e os presídios de segurança máxima como instrumentos para isolar lideranças criminosas.
Ele também apoiou o fortalecimento da atuação local no combate à violência, elogiando dispositivos da PEC da Segurança que ampliam o papel das guardas municipais e das estruturas locais. Segundo Alckmin, polícia é ação no território, e quem está mais próximo da realidade concreta das cidades costuma conhecer melhor a dinâmica do crime.
Na área social, o vice-presidente falou sobre o feminicídio e afirmou que o enfrentamento da violência contra a mulher exige dois eixos complementares: educação e punição. Para ele, é preciso romper a cultura machista que naturaliza a violência e, ao mesmo tempo, assegurar que criminosos sejam efetivamente responsabilizados. Disse que a impunidade estimula o delito e que penas rigorosas ajudam a desestimular esse tipo de crime. Também citou programas voltados à inserção e à ascensão profissional das mulheres, como iniciativas de mentoria e participação feminina no comércio exterior.
Ao se aproximar do tema eleitoral, Alckmin reconheceu que o mundo vive um tempo de crescente polarização e que o Brasil não está isolado desse fenômeno. Ainda assim, afirmou que o presidente Lula chega forte para a disputa porque eleição, segundo ele, é comparação concreta entre governos e resultados. Nesse sentido, apontou avanços em áreas como combate ao desmatamento, educação, saúde, infraestrutura, vacinação e inserção internacional do país.
Para exemplificar essa linha de argumentação, mencionou a redução do desmatamento, o programa Pé-de-Meia, a ampliação do ensino técnico, as ações em saúde, a entrega de aceleradores lineares para tratamento de câncer e a retomada de políticas de vacinação. Também recorreu ao conceito de “taxa de desconforto”, soma entre desemprego e inflação, para sustentar que o governo chega melhor posicionado ao debate público, já que, segundo ele, hoje o país combina desemprego baixo e inflação em patamar controlado.
No mesmo raciocínio, Alckmin afirmou que o equilíbrio fiscal é necessário, mas argumentou que o ajuste não pode recair sobre os mais pobres. Segundo ele, a diferença central entre projetos políticos está em saber se o esforço para enfrentar o déficit será imposto ao aposentado, ao trabalhador de baixa renda e aos mais vulneráveis ou se haverá correção de privilégios e maior justiça social.





