
Rabah afirmou que a FEPAL divulgou uma nota pública “logo após meio-dia” classificando a operação como um ataque “covarde e ilegal” e associando seus executores a crimes contra crianças, em referência ao caso Epstein.
Em edição especial do programa Forças do Brasil, exibida pela TV 247 na noite de sábado, 28 de fevereiro de 2026, o presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL), Ualid Rabah, analisou os ataques atribuídos a Estados Unidos e Israel contra o Irã e a retaliação iraniana contra alvos ligados a Washington em países do Golfo. A entrevista, conduzida por Mário Vitor Santos, trouxe críticas contundentes ao que Rabah descreveu como uma estratégia de guerra permanente no Oriente Médio, com impactos diretos sobre civis e, segundo ele, sobre o futuro de sociedades inteiras.
Logo no início, Rabah afirmou que a FEPAL divulgou uma nota pública “logo após meio-dia” classificando a operação como um ataque “covarde e ilegal” e associando seus executores a crimes contra crianças, em referência ao caso Epstein. Na conversa, ele sustentou que o ataque teria deixado “pouco mais de 200” mortos e destacou uma informação que, segundo ele, não poderia ser naturalizada: a de que uma escola no interior do sul do Irã teria sido atingida, com “quase 100” meninas entre as vítimas (hoje, sabe-se que são 148 mortos).
Ao comentar o episódio da escola, Rabah questionou o critério militar da ofensiva. Para ele, atingir um alvo infantil em uma área distante de centros estratégicos reforça a hipótese de intencionalidade. O dirigente associou a prática ao que considera ser um padrão já evidenciado em Gaza, com destruição de escolas, universidades e hospitais, e argumentou que a violência contra crianças e mulheres se conecta a uma tentativa de aniquilar o futuro de um povo.
Questionado sobre a razão de o ataque ocorrer em meio a sinais de negociações promissoras, Rabah apontou um padrão temporal. Segundo ele, ofensivas anteriores teriam ocorrido logo após a conclusão de rodadas de conversas mediadas por Omã, repetindo um movimento de sabotagem quando há chance de distensão.
Para Rabah, há “elites dentro dos Estados Unidos” que, em vez de defenderem interesses nacionais do próprio país, se alinhariam a interesses estratégicos de Israel e a uma “quinta coluna interna” representada pelo lobby pró-Israel, em articulação com setores regionais. Nesse ponto, ele citou as petromonarquias do Golfo, especialmente os Emirados Árabes Unidos, como atores que, em sua leitura, “ganham mais com as guerras” do que o próprio Israel, e não teriam interesse em estabilidade.
A entrevista também abordou a mudança no padrão de resposta iraniano. Rabah afirmou que o Irã teria avisado previamente que atacaria “a totalidade das bases destinadas aos equipamentos estadunidenses de agressão ao Irã” e defendeu que a retaliação a instalações militares deveria ser distinguida de ataques diretos a populações civis.
Um dos eixos centrais da conversa foi a ideia de “Grande Israel”. Rabah citou o que chamou de declarações de autoridades e parlamentares defendendo a expansão territorial israelense como projeto “bíblico” e descreveu um mapa que incluiria não apenas a Palestina, mas também porções do Líbano, Jordânia, Síria, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Turquia. Ele avaliou que essa perspectiva se conecta a disputas por rotas hídricas e por controle geopolítico, sobretudo em regiões estratégicas do Oriente Médio e do Mar Vermelho.
Em sua análise, um eventual acordo entre Estados Unidos e Irã que restabeleça trocas comerciais e permita ao Irã um projeto autônomo “desapareceria” a relevância de regimes aliados de Washington na região, enfraquecendo a engrenagem econômica e militar que sustenta a arquitetura atual do poder.
Rabah também comentou a “guerra informativa” que acompanha conflitos contemporâneos, criticando a saturação de boatos e “minuto a minuto” que, segundo ele, desorienta o debate público. Nesse contexto, Mário levantou informações veiculadas por meios internacionais sobre supostos sinais de que Ali Khamenei teria sido assassinado.
Ao tratar da Síria, Rabah descreveu o país como um “não Estado”, com soberania fragmentada por presenças e influências externas. Ele afirmou que houve destruição de infraestrutura militar síria e ampliação de áreas ocupadas por Israel, e relacionou esse processo a decisões tomadas nos Estados Unidos durante a primeira gestão de Donald Trump, incluindo o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel e da soberania israelense sobre as Colinas de Golã.
Na visão do dirigente da FEPAL, a Síria se tornou peça de uma engrenagem maior: um corredor de interesses no qual bases, alianças e ocupações se combinam para manter a região sob pressão constante, com repercussões diretas sobre o Irã e sobre a causa palestina.
O trecho mais longo e detalhado da entrevista tratou de Gaza. Rabah criticou narrativas ocidentais que, segundo ele, apresentam como objetivos centrais de Israel a libertação de reféns e a eliminação do Hamas. Para ele, esses objetivos poderiam ter sido resolvidos ainda em 2023 com acordos de troca de prisioneiros e cessar-fogo, mas a continuidade da ofensiva revelaria outra intenção: tornar Gaza “inabitável” e promover “limpeza étnica”, incluindo a apropriação de recursos energéticos no litoral.
Ele citou dados do Escritório Central de Estatísticas da Palestina para sustentar a tese de redução demográfica, afirmando que Gaza teria hoje uma população menor do que a projetada, com um “déficit” de centenas de milhares de pessoas em relação ao que deveria existir em 2026. Rabah apresentou esse cálculo como evidência de deslocamento, mortes e desestruturação social provocadas pela guerra.
No encerramento, Mário pediu uma avaliação de duração do confronto entre Estados Unidos, Israel e Irã. Rabah respondeu de forma direta: “De dias”. Ele admitiu que poderiam ser “8, 9 dias”, mas descartou semanas, argumentando que campanhas longas implicariam outro tipo de composição e capacidade sustentada.
Para o dirigente da FEPAL, a aposta central de Washington seria “desmobilizar a elite iraniana”, gerar caos e, em seguida, capitulação e substituição do comando político do país, numa tentativa de restaurar um papel regional semelhante ao período do xá, entre 1953 e 1979.
Ao longo de toda a entrevista, Rabah insistiu que a escalada não pode ser lida como episódio isolado. Na sua interpretação, o ataque ao Irã, a pressão sobre países do Golfo e a destruição em Gaza compõem um mesmo tabuleiro, no qual guerras, desinformação e alianças regionais se combinam para redesenhar o Oriente Médio — e, por extensão, influenciar os rumos do mundo multipolar que se fortalece ao redor de blocos como os BRICS.





