
Puxa-saco do Poder, ele acha que tinha tudo para brilhar: de família rica, “filho da oligarquia latifundiária do Alto Juruá (AM)”, pertence ao segmento social e econômico que construiu seu poder oprimindo cabocos e indígenas, “tomando suas terras e sugando seu sangue”.
Por José Ribamar Bessa (Coluna TAQUIPRATI) – Como reage o professor, quando um ex-aluno quer enforcar uma ex-aluna? Sobre os dois posso falar ex-cathedra. Plínio Valério, hoje senador (PSDB vixe-vixe), cursava jornalismo na Universidade do Amazonas (UFAM) em 1978. Era um garotão de 22 anos, com quem eu simpatizava por ele desafiar a minha pedagogia docente inspirada no “bom pastor”. Saí em busca daquela ovelha discente desgarrada, que se sentia medíocre no meio de colegas brilhantes. Podia salvá-lo de sua mediocridade? Bem que tentei, mas fracassei. Agora ele quer enforcar a Marina.
Graduada em História, Marina Silva cursou Pós-Graduação em História Econômica e Social da Amazônia na Universidade Federal do Acre (UFAC), para quem ministrei História da Amazônia I, em 1986. Na turma, só tinha “fera”, entre outros Arnóbio, o Binho, eleito depois governador do Acre. A própria Marina, em 1994, aos 36 anos de idade, seria a mais jovem senadora do Brasil. Foi reeleita em 2002. “Ela é excepcionalmente honesta e inteligente” – me confirmou D. Moacyr Grechi, na época bispo da diocese de Rio Branco.
Para o bispo, o correto é avaliar pessoas por sua retidão e decência e só depois pela inteligência. Claro, se o medíocre é mau caráter, a mediocridade é uma agravante. É o caso. Cunhado da dona do jornal no qual trabalhava sua colega Verenilde Pereira, Plinio, empoderado, a perseguiu até demiti-la. O jornal perdeu o texto invejável de uma repórter excepcional. Doutora pela UnB, hoje é escritora festejada até fora do Brasil. Já Plínio nunca foi picado pelo mosquito do talento porque enseba seu corpo com repelex envy, que o tornou repelente.
O brilho da cobra
Por que Plínio prejudicou sua colega? Parte da resposta está na história que o escritor Tukano, Manoel Moura, me contou. Eram três vagalumes – Cuisi, Uiuári e Oán – perseguidos por uma cobra que matou dois deles. Oán, o sobrevivente, perguntou: – Se não fazemos parte da tua cadeia alimentar, por que você nos mata? Já te fizemos algum mal na vida? A jararacuçu respondeu: – Quero que morram, porque vocês brilham e eu não. O brilho alheio me ofusca. Foi o que aconteceu com a luz da Verenilde e agora com a da Marina Silva.
O brilho da Marina Silva ofuscou o biltre obscuro, sobretudo porque ele acha que ela tinha tudo para ter uma vida apagada. Nasceu no seringal Bagaço, morou em palafita com seus dez irmãos em situação de extrema pobreza. Aos 10 anos de idade já produzia borracha, contraiu hepatite, malária, leishmaniose e foi contaminada por mercúrio. Migrou para Rio Branco, onde trabalhou como empregada doméstica. Alfabetizada aos 16 anos, fundou com Chico Mendes a CUT do Acre e militou sempre em favor dos lascados e da floresta.
Já o estrangulador é a negação de tudo isso. Puxa-saco do Poder, ele acha que tinha tudo para brilhar: de família rica, “filho da oligarquia latifundiária do Alto Juruá (AM)”, pertence ao segmento social e econômico que construiu seu poder oprimindo cabocos e indígenas, “tomando suas terras e sugando seu sangue”. Foi derrotado em cinco eleições, mas em 2018, na onda fascitóide do bolsonarismo, se elegeu senador. Segundo o sociólogo Lúcio Carril, “Plínio Valério não se tornou um facínora de uma hora pra outra. Ele tem lastro”.
Plínio é um ser desalumiado, objeto de galhofa de gente do seu próprio partido, enquanto Marina é admirada no mundo inteiro por sua defesa do meio ambiente e da vida. Ela se elegeu vereadora, deputada estadual, federal, senadora. Foi ministra de Estado três vezes e mesmo fora do poder, foi convidada pela rainha da Inglaterra para participar da cerimônia de abertura das Olímpiadas de Londres. Marina é um vagalume. Seu brilho incomoda a serpente peçonhenta que destila o veneno do ódio e da violência.
Beato Salu
No entanto, não foi só a inveja que levou Plinio a querer enforcar Marina. Sentiu que ela ameaçava seu patrimônio e colocava em risco seus bens, entre eles um chalé irregular dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Tupé, em Manaus, onde moram 80 famílias modestas da comunidade São João, segundo o jornal De olho nos ruralistas dirigido por Alceu Castilho, respeitável jornalista investigativo.
Lá, nesta reserva natural, é proibido qualquer construção feita por pessoas de fora da comunidade tradicional, que cuida do lugar. Trata-se de gleba federal, não há lotes à venda – garante o Incra. A Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Sustentabilidade, administradora da área, informou por e-mail – segundo a jornalista Carolina Bataier – que “é ilegal a aquisição de terras por terceiros no interior da reserva”. Ou seja, ele está na ilegalidade.
A invasão do Tupé se torna mais irônica ainda, quando sabemos que Plínio Valério (PV) estava infiltrado no Partido Verde (PV) em 2005-2006. Ele já carregava o apelido de Beato Salu – personagem da novela Roque Santeiro, exibida em 1985 pela TV Globo. Agora, aluga o seu Chalé de Pedra pela plataforma Airbnb por R$1.466 a diária, o que pode render mensalmente mais de R$ 43 mil. O anúncio garante que tem ar condicionado, wifi, suíte com cama queen size, vista para o rio Negro e outros babados.
Daí o ataque a Marina, uma guerreira defensora das reservas ambientais, da floresta e das terras indígenas, que combate o garimpo ilegal, o envenenamento dos rios e dos peixes, o desmatamento e o incêndio criminoso de árvores com mortes de animais que nelas habitam. Por isso, o Beato Salu reuniu uma patota da sua laia na CPI das Ongs para atacar Marina.
Banho de cuia
Um levantamento comprova que senadores da CPI das Ongs devem R$548 mil em multas ao Ibama, um deles, Jaime Bagattoli, possui fazenda dentro de área indígena em Rondônia. Não é o único. De Olho nos Ruralistas identificou 42 políticos com fazendas dentro de Terras Indígenas.
Foi por isso que a tal da CPI das Ongs, composta por “fazendeiros” da Amazônia, concluiu seus trabalhos recomendando a mineração e a pecuária em terra indígena, o afrouxamento do licenciamento ambiental e menos poder ao Ministério Público Federal (MPF). Eles tiveram o desplante de culpar indígenas e cabocos por delitos cometidos pelo garimpo e por madeireiras.
O Beato Salu tomou um esplendoroso “banho de cuia” da Marina na CPI. Ficou de queixo caído. Sem argumentos para contradizê-la revelou agora durante cerimônia da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio do Amazonas): “Imagine o que é tolerar Marina 6 horas e dez minutos sem enforcá-la”. Notas de protesto pipocaram por todos os lados.
A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) repudiou “a fala agressiva de ódio e misoginia”, e pediu “medidas rigorosas para punir o crime”. Nove deputadas federais ingressaram com representação no Conselho de Ética do Senado, com pedido de cassação por quebra de decoro. O Fórum Permanente de Mulheres de Manaus (FPMM) formado por 40 coletivos de mulheres do campo, da cidade, indígenas e negras quer que a Procuradoria-Geral da República (PGR) apure o delito.
No Senado, o agressor foi repreendido publicamente pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre e pela Procuradora da Mulher, a senadora Zenaide Maia, para quem “todas nós somos Marina. Ele agrediu também a todas nós parlamentares e a todas brasileiras”. Apesar disso, o Beato Salu disse que “não via motivos para pedir desculpas à ministra”.
Coquinho de tucumã
Reza a lenda que quem come o coquinho do caroço de tucumã, fica burro. Plínio comeu e, por isso, nem desconfia do crime que cometeu. Como é que um senador, cujo trabalho se assenta no discurso, desconhece regras básicas sobre o lugar de fala? Como um representante do povo amazonense faz tal declaração em evento público, como se estivesse numa mesa de bar falando para seus cupinchas? O lugar público requer um mínimo de compostura.
Não se tratou de mero excesso verbal ou de piadinha inócua. Não é exagero pedir sua cassação, pois no atual contexto de feminicídio no Brasil, sua fala fomenta o ódio e incita à violência contra as mulheres. Divergências devem ser tratadas com argumentos e não com ofensas. O senso comum machista institucionalizado desqualifica o debate político.
Tem gente que quer enforcar o Beato Salu, mas manifesto meu desacordo, não podemos nos igualar a ele. Já dizia o evangelista, não sei se Mateus ou Marcos: “Não enforqueis para não serdes enforcado”. Inspiremo-nos em Charles Chaplin, que em pleno ascensão do nazismo. zombou de Hitler no filme “O Grande Ditador” (1940), justificando: – “Creio no riso e nas lágrimas como antídotos contra o ódio e o terror”. ´´E isso. Plínio já se enforcou, usando como corda um rolo de papel higiênico usado.
P.S. 1 – Peço desculpas pelo texto tardio ocorrido por razões de saúde. Costumo usar o teclado do computador, quando a raiva ou o amor coçam os meus dedos. Ou os dois juntos, como aconteceu agora. Agradeço munição com carga explosiva enviada em drones pelos jornalistas Mário Adolfo, Aldísio Filgueiras, Verenilde Pereira, Ana Artaxo, Carolina Bataier, Tonsk Fialho, além da historiadora Gleice Oliveira, do designer Amaro Júnior e do sociólogo Lúcio Carril.