
As manifestações ocorreram na comunidade de Rokoari, onde indígenas gravaram um vídeo no final de setembro para relatar as consequências da invasão garimpeira.
Mulheres do povo Yanomami divulgaram um manifesto contra a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República e declararam apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo reportagem assinada por Isabel Harari, do Repórter Brasil, lideranças indígenas temem que uma eventual vitória do senador no segundo turno das eleições de 2026 provoque o retorno da expansão do garimpo ilegal e o agravamento das condições de saúde na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, após a crise humanitária que atingiu a população durante o governo de Jair Bolsonaro.
As manifestações ocorreram na comunidade de Rokoari, onde indígenas gravaram um vídeo no final de setembro para relatar as consequências da invasão garimpeira. De acordo com a Repórter Brasil, as participantes associam o período de expansão da atividade ilegal à disseminação de doenças, à fome e às dificuldades de acesso a atendimento médico. O manifesto também relembra as mortes de crianças indígenas entre 2019 e 2022 e expressa o receio de que o candidato do PL adote políticas semelhantes às do pai.
Os números do Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena (Siasi), vinculado ao Sistema Único de Saúde (SUS), mostram que 420 crianças Yanomami com menos de cinco anos morreram por causas evitáveis entre 2019 e 2022. O total representa quase o dobro dos óbitos registrados nos quatro anos anteriores. Entre as vítimas, 47 morreram em decorrência da malária e outras 115 apresentavam desnutrição.
A dimensão da crise também aparece nos dados sobre a ocupação do território. Em fevereiro de 2023, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) estimava a presença de aproximadamente 20 mil garimpeiros na região. Entre 2020 e 2022, o Centro Gestor Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia identificou mais de 1,5 mil pontos de mineração ilegal, que provocaram a devastação de 2,2 mil hectares.
A Terra Indígena Yanomami abriga cerca de 31 mil habitantes e ocupa uma área próxima à extensão territorial de Portugal. A região de Papiu, onde vive uma das mulheres que participaram do manifesto, esteve entre as localidades mais afetadas pela presença de garimpeiros.
No vídeo, Noemia, moradora da região de Papiu, manifesta preocupação com a possibilidade de que a situação sanitária volte a se deteriorar.
“Eu não quero o filho do Bolsonaro. Não quero nossos filhos cheios de malária de novo”, afirma a indígena.
As mulheres também divulgaram uma carta que relaciona o avanço de doenças e da desnutrição às consequências da exploração ilegal de ouro e à atuação do governo anterior.
“O rastro de Bolsonaro é contaminado por doenças, está cheio de malária, diarreia, verminoses, feridas, pneumonia, tomado pela desnutrição, vômito e coceira. O caminho de Bolsonaro é assim e por isso nós, mulheres da floresta, não queremos que seu filho Flávio assente na cadeira de presidente”, diz o manifesto.
Outra participante, Adneia Yanomami, resume o temor das comunidades diante da possibilidade de uma nova crise: “Não queremos voltar a chorar”.
As lideranças afirmam que a população ainda convive com as consequências da invasão garimpeira e defendem a continuidade das ações de proteção territorial e assistência à saúde.
A expansão da mineração ilegal provocou o fechamento de unidades de saúde e dificultou o trabalho das equipes médicas na Terra Indígena Yanomami.
Um relatório do MPF descreve os impactos da presença de garimpeiros sobre a assistência sanitária e aponta falhas do poder público na proteção das comunidades.
“O desastre socioambiental promovido pelo garimpo ilegal e a correspodente omissão do estado brasileiro em garantir segurança territorial ao povo Yanomami tiveram, por fim, o efeito disruptivo de colapsar a já fragilizada assistência sanitária no território”, afirma o documento.
Entre as unidades afetadas estava o posto de Homoxi, responsável pelo atendimento de aproximadamente 250 indígenas. O estabelecimento funcionava nas proximidades de uma área de mineração e sofreu um incêndio em dezembro de 2022. As suspeitas sobre a autoria recaíram sobre garimpeiros que ocupavam ilegalmente a região.
Além de prejudicar os serviços médicos, a invasão dificultou o transporte de medicamentos e equipamentos para comunidades que dependem de aeronaves para receber assistência.
Em setembro de 2022, a Hutukara Associação Yanomami encaminhou um ofício às autoridades relatando problemas no abastecimento de medicamentos nas regiões de Xitei e Surucucu, áreas que também enfrentavam a presença de garimpeiros.
O documento, ao qual a Repórter Brasil teve acesso, registrou a morte de seis crianças em apenas três semanas, entre agosto e setembro daquele ano. Uma delas morreu em decorrência de um quadro de pneumonia relacionado a uma infestação de vermes.
A associação denunciou a ausência de remédios para combater parasitoses e impedir o agravamento das doenças nas comunidades.
Segundo a Hutukara, os postos não dispunham dos “medicamentos necessários para o controle de verminoses, impossibilitando o tratamento e a prevenção em comunidades inteiras”.
Investigações do Ministério Público Federal também identificaram indícios de irregularidades na aquisição de medicamentos destinados à população Yanomami.
Em 2021, o Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami reservou R$ 3 milhões para a compra de remédios essenciais. O MPF apura suspeitas de que fornecedores entregaram apenas parte dos produtos, embora tenham recebido o pagamento integral das notas fiscais.
De acordo com as investigações, mais de 10 mil crianças indígenas podem ter ficado sem tratamento adequado contra verminoses. Os relatos incluem casos de pacientes que chegaram a expelir vermes pela boca diante do agravamento das infecções.
As suspeitas de fraude e desvio de recursos integram as apurações sobre as falhas na assistência médica durante a crise humanitária.
Emergência sanitária marcou início do terceiro governo Lula
Em janeiro de 2023, após assumir seu terceiro mandato, Lula determinou medidas emergenciais para enfrentar o colapso da assistência à saúde na Terra Indígena Yanomami. O governo federal reconheceu a situação de emergência e mobilizou órgãos públicos para prestar atendimento à população.
A crise expôs as consequências da mineração ilegal sobre a saúde das comunidades, a segurança alimentar e a preservação ambiental. O avanço dos garimpos comprometeu rios e áreas de floresta, afetando atividades de subsistência e o acesso aos serviços de saúde.
O Ministério Público Federal relacionou a deterioração das condições sanitárias aos impactos da mineração e à insuficiência das medidas de proteção territorial. Entre 2015 e 2018, o órgão contabilizou 244 mortes de crianças Yanomami por causas evitáveis, número que chegou a 420 nos quatro anos seguintes.
No manifesto divulgado durante a campanha eleitoral de 2026, as mulheres Yanomami retomam essas experiências para explicar suas preocupações com o futuro do território. As lideranças associam a preservação das comunidades à manutenção do combate ao garimpo ilegal e à garantia de atendimento médico.
Ao recordar as mortes, as doenças e a interrupção dos serviços públicos durante o governo Jair Bolsonaro, as participantes do documento defendem a continuidade das políticas de proteção à Terra Indígena Yanomami e manifestam apoio à permanência de Lula na Presidência.





