
As maiores quedas absolutas ocorreram na África do Sul, com quase 31 mil crianças a menos, seguida por Zimbábue e Quênia, cada um com redução superior a 6.000.
Cortes promovidos pelo governo Donald Trump no Pepfar, o maior programa dos Estados Unidos de combate ao HIV, fecharam cerca de 1.700 pontos de atendimento em 46 países e deixaram 77 mil crianças soropositivas fora da rede de tratamento apoiada pela iniciativa em um ano, uma queda de 14,2%.
Os números aparecem em dois estudos que serão apresentados na Conferência Internacional de Aids, marcada para começar no domingo (26), no Rio de Janeiro. O evento reunirá 7.000 participantes e terá sua primeira edição na América do Sul; os principais achados científicos foram divulgados na terça-feira (21).
Beatriz Grinsztejn, presidente da IAS, co-presidente da Aids 2026 e diretora da Unidade de Pesquisa Clínica em HIV/Aids do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz, afirmou que os avanços médicos dependem de acesso real aos pacientes. “A ciência está avançando rápido, nos dando ferramentas mais poderosas de prevenção e tratamento do HIV. Mas esses avanços não conseguem salvar vidas se nunca chegam a quem precisa. Isso exige financiamento robusto e estável e compromisso político constante”, disse.
O Pepfar Pulse Study ouviu 166 organizações parceiras do programa em 46 países, entre novembro de 2025 e abril de 2026. A pesquisadora Elise Lankiewicz, da amfAR, disse que essas entidades foram “atingidas de duas frentes”: parte perdeu contratos diretamente, enquanto outra manteve financiamento, mas precisou alterar sua programação para se adequar às prioridades do atual governo estadunidense.
Entre as organizações que continuaram financiadas, 77% relataram novas restrições da política estadunidense como condição para manter os recursos. As exigências incluíam limitar atividades ao que o governo classificou como “de salvamento de vidas”, impor restrições ligadas a diversidade, equidade, inclusão e gênero, e suspender ou reduzir serviços para populações mais vulneráveis ao HIV.
O estudo aponta que o núcleo do tratamento de HIV ficou relativamente mais protegido, mas ações diretamente ligadas à continuidade do cuidado sofreram cortes. Entre organizações que ofereciam prevenção, 43% interromperam permanentemente ao menos uma atividade, com perdas mais profundas na distribuição de preservativos e de PrEP, a profilaxia pré-exposição.
Serviços de base comunitária, trabalho de campo, apoio à adesão ao tratamento e redes de pares tiveram interrupções generalizadas: mais de 80% das organizações que atuavam nessa frente relataram suspensão em todas as categorias de atendimento comunitário que prestavam. Mesmo entre entidades sem contratos cancelados, os serviços mais suspensos foram os voltados aos grupos mais vulneráveis ao HIV, atingidos em 64% dos casos.
O segundo estudo, apresentado por Ramona Godbole, do Instituto Heidelberg de Saúde Global, analisou o apoio direto do Pepfar ao tratamento pediátrico em unidades de saúde, comparando 2025 a 2024. O levantamento encontrou 77 mil crianças a menos em tratamento apoiado pelo programa, com redução de 14,2%; entre os 21 países com maior número de crianças nessa rede, 20 registraram queda, sempre mais intensa entre crianças do que entre adultos.
As maiores quedas absolutas ocorreram na África do Sul, com quase 31 mil crianças a menos, seguida por Zimbábue e Quênia, cada um com redução superior a 6.000.
África do Sul e Índia tiveram as maiores quedas percentuais, acima de 40%. Como a redução no número de crianças em tratamento também pode refletir avanços na prevenção da transmissão vertical, os pesquisadores compararam 2025 com a tendência de 2019 a 2024 e identificaram desvios negativos significativos em Haiti, Quênia, África do Sul, Uganda e Zâmbia; Godbole defendeu investigação urgente nos locais e a retomada da divulgação pública de dados do Pepfar detalhados por idade.





