
Segundo a Reuters, a mensagem que Washington pretende transmitir aos parceiros é que não seria possível participar simultaneamente de iniciativas consideradas concorrentes.
Os Estados Unidos planejam pressionar dezenas de países a escolher um lado na crescente disputa global pela inteligência artificial. O governo norte-americano prepara uma carta destinada aos 35 signatários de uma declaração de cooperação tecnológica para advertir que países que também aderirem à iniciativa chinesa de inteligência artificial poderão ser excluídos da coalizão liderada por Washington.
Segundo a Reuters, a mensagem que Washington pretende transmitir aos parceiros é que não seria possível participar simultaneamente de iniciativas consideradas concorrentes. Embora o documento não mencione explicitamente a China, o alvo da advertência é a nova estrutura internacional de cooperação em inteligência artificial anunciada por Pequim.
A movimentação ocorre justamente quando modelos chineses avançam no mercado internacional e desafiam sistemas desenvolvidos por empresas norte-americanas, entre elas OpenAI e Anthropic.
Segundo uma autoridade citada anonimamente pela Reuters, a avaliação norte-americana é de que um país não pode participar de todas as iniciativas simultaneamente e, ao mesmo tempo, ser considerado um parceiro plenamente confiável em áreas tecnológicas estratégicas.
A lógica de Washington é que inteligência artificial, semicondutores e minerais críticos deixaram de ser tratados apenas como setores econômicos.
Essas tecnologias passaram a ser consideradas ativos de segurança nacional.
Por isso, os Estados Unidos procuram construir uma cadeia internacional de parceiros considerados confiáveis.
Um dos instrumentos dessa política é a Pax Silica, iniciativa norte-americana voltada à cooperação entre países considerados estratégicos para as cadeias de suprimentos tecnológicas.
O objetivo é reduzir vulnerabilidades relacionadas à dependência de adversários em áreas como minerais críticos, semicondutores, infraestrutura digital e inteligência artificial.
Na visão norte-americana, não basta dominar o desenvolvimento dos modelos de inteligência artificial. É necessário também garantir acesso seguro aos componentes físicos que permitem sua existência.
Isso começa nos minerais utilizados na produção de equipamentos e passa pela fabricação de semicondutores, pela infraestrutura energética necessária aos data centers e pelo desenvolvimento dos próprios modelos de IA.
A competição tecnológica transforma, dessa maneira, toda a cadeia produtiva em questão geopolítica.
Segundo a Reuters, é o único país conhecido por participar tanto da estrutura de cooperação promovida pelos Estados Unidos quanto da iniciativa chinesa.
A situação desperta atenção de Washington devido à importância das reservas de minerais críticos do país centro-asiático.
O Cazaquistão ocupa uma posição geográfica estratégica entre China, Rússia e Europa e procura historicamente manter relações com diferentes polos internacionais.
A crescente polarização tecnológica, entretanto, pode tornar esse equilíbrio mais difícil.
A pressão norte-americana indica que Washington pretende restringir a possibilidade de países participarem simultaneamente dos dois ecossistemas.
A ofensiva dos Estados Unidos ocorre depois de a China avançar na construção de sua própria arquitetura internacional para inteligência artificial.
Em julho, o presidente chinês Xi Jinping anunciou uma iniciativa de cooperação global voltada à tecnologia, apresentando uma alternativa às estruturas lideradas pelos Estados Unidos.
Pequim tem defendido maior cooperação internacional em inteligência artificial e procura ampliar a presença de suas tecnologias no mercado mundial.
A estratégia chinesa ganha importância à medida que empresas do país conseguem desenvolver modelos cada vez mais competitivos.
Durante anos, a liderança norte-americana em inteligência artificial parecia difícil de contestar. Empresas dos Estados Unidos concentravam os modelos mais avançados, grande parte da infraestrutura de computação e os principais investimentos privados.
O avanço chinês alterou essa percepção.
O crescimento dos sistemas desenvolvidos na China tornou a competição mais acirrada.
Modelos chineses vêm reduzindo a distância em relação às plataformas norte-americanas e ampliando sua presença internacional, criando uma disputa que envolve desempenho, custos, disponibilidade e capacidade de adaptação.
Do lado dos Estados Unidos, empresas como OpenAI e Anthropic estão entre os protagonistas da corrida.
Do lado chinês, uma série de companhias disputa espaço tanto no mercado doméstico quanto internacional.
A competição não se limita, portanto, à pergunta sobre qual país desenvolverá o modelo mais sofisticado.
Também está em jogo qual ecossistema tecnológico será adotado por governos, empresas e usuários ao redor do planeta.
Essa escolha poderá determinar padrões técnicos, infraestrutura digital, armazenamento de dados e dependências econômicas durante décadas.
A inteligência artificial depende de uma infraestrutura física gigantesca.
Data centers exigem semicondutores avançados, sistemas de refrigeração, redes elétricas robustas e enorme quantidade de equipamentos.
A fabricação desses componentes, por sua vez, depende de cadeias globais de minerais críticos.
É justamente nessa área que a China possui enorme peso internacional.
Washington procura reduzir essa dependência diversificando fornecedores e aproximando países detentores de reservas minerais estratégicas.
A Pax Silica integra essa política.
Ao combinar minerais, chips e inteligência artificial em uma mesma estratégia, os Estados Unidos deixam claro que enxergam essas áreas como partes de uma única cadeia de segurança econômica e tecnológica.
Outro instrumento utilizado na disputa são os controles de exportação.
Os Estados Unidos vêm empregando restrições para limitar o acesso chinês a determinadas tecnologias consideradas sensíveis, especialmente semicondutores avançados e equipamentos necessários para sua fabricação.
A lógica é impedir ou retardar o acesso de competidores estratégicos às tecnologias mais avançadas.
A China, por sua vez, dispõe de instrumentos próprios de pressão econômica e tecnológica.
Segundo a Reuters, Pequim avalia possíveis restrições relacionadas ao acesso internacional a seus principais modelos de inteligência artificial, em uma demonstração de que questões de segurança nacional também passam a pesar na política tecnológica chinesa.
O resultado pode ser uma fragmentação progressiva do ambiente digital mundial.
A competição entre OpenAI, Anthropic e empresas chinesas poderia, em outras circunstâncias, ser interpretada como uma disputa convencional entre companhias tecnológicas.
A movimentação dos governos mostra que a questão é muito maior.
Estados Unidos e China enxergam a liderança em inteligência artificial como elemento central de poder econômico, científico e militar.
O país que dominar tecnologias avançadas de IA poderá obter vantagens em produtividade, indústria, ciência, defesa, inteligência, logística e desenvolvimento de novas tecnologias.
A capacidade de estabelecer padrões internacionais também pode produzir enorme influência.
É nesse contexto que Washington procura transformar sua liderança empresarial em uma coalizão internacional mais estruturada.
A carta destinada aos 35 países mostra que a disputa começa a alcançar uma nova etapa.
Até agora, muitos governos procuraram manter relações tecnológicas simultâneas com Estados Unidos e China.
A estratégia permitia utilizar investimentos, equipamentos e sistemas provenientes dos dois lados sem assumir alinhamento exclusivo.
A posição norte-americana relatada pela Reuters coloca esse modelo sob pressão.
Se Washington efetivamente condicionar a participação em suas iniciativas à não adesão às estruturas chinesas, governos de diferentes regiões poderão enfrentar escolhas mais difíceis.
A questão será especialmente relevante para países do Sul Global, muitos dos quais mantêm importantes relações econômicas tanto com a China quanto com os Estados Unidos.
A movimentação confirma que a inteligência artificial está deixando rapidamente de ser apenas uma revolução tecnológica para se tornar um dos principais terrenos da disputa pelo poder mundial.
No século XX, petróleo, capacidade industrial, armas nucleares e domínio espacial estiveram entre os principais indicadores de poder estratégico.
No século XXI, dados, semicondutores, capacidade computacional e inteligência artificial passam a integrar essa equação.
A tentativa dos Estados Unidos de exigir maior exclusividade de seus parceiros mostra como a competição tecnológica pode dividir cadeias produtivas e criar blocos internacionais concorrentes.
De um lado, Washington procura reunir aliados em torno de uma cadeia de suprimentos considerada segura, abrangendo minerais críticos, chips e modelos avançados.
De outro, Pequim amplia sua própria estrutura internacional de cooperação e apresenta a tecnologia chinesa como alternativa.
A pressão relatada pela Reuters sobre os 35 países é mais um sinal de que a corrida global pela inteligência artificial entrou em uma fase na qual a disputa por modelos e semicondutores se mistura cada vez mais à geopolítica — e na qual grandes potências procuram definir não apenas quais tecnologias serão utilizadas, mas também quais países poderão cooperar simultaneamente com os dois lados.





