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Bolsa de Valores retoma negociações após circuit breaker’

A vitória de Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) contrariou as expectativas de parte dos investidores, que haviam apostado na vitória do candidato bolsonarista e em uma mudança na condução da política econômica.

Bolsa de Valores retoma negociações após circuit breaker'

Mesmo com alguma recuperação posterior, a Bolsa continuou acumulando perdas expressivas, em um movimento que atingiu empresas de diferentes segmentos da economia brasileira.

A Bolsa de Valores brasileira registrou queda de 14,7% por volta das 16h desta segunda-feira (26), com o Ibovespa aos 174.909 pontos, após interromper temporariamente as negociações diante da reação do mercado financeiro à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O balanço foi divulgada pelo Valor. O mecanismo de proteção conhecido como circuit breaker entrou em operação pela primeira vez desde março de 2020. No mercado de câmbio, o dólar avançava 8,5%, cotado a R$ 5,42.

A vitória de Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) contrariou as expectativas de parte dos investidores, que haviam apostado na vitória do candidato bolsonarista e em uma mudança na condução da política econômica. A B3 suspendeu as operações durante 30 minutos após identificar uma queda de pelo menos 10% no principal indicador do mercado acionário. A paralisação busca conter oscilações em momentos de desvalorização acentuada e permitir que os participantes reavaliem suas posições antes da continuidade das negociações.

O pregão voltou a funcionar por volta das 10h40, mas a pressão vendedora persistiu. Após registrar 202.928,87 pontos, em recuo de 1,05%, o Ibovespa aprofundou as perdas e atingiu 170.340,70 pontos às 10h46, uma desvalorização de 16,94%.

Ao longo da sessão, o índice chegou à mínima de 169.516 pontos. Mesmo com alguma recuperação posterior, a Bolsa continuou acumulando perdas expressivas, em um movimento que atingiu empresas de diferentes segmentos da economia brasileira.

Caso as perdas alcancem 15% após a retomada, o mecanismo normalmente determina uma segunda paralisação, desta vez por uma hora. Uma retração de 20% permite que a B3 estabeleça outro período de interrupção.

Nesta segunda-feira, a Bolsa informou que somente acionaria novamente o dispositivo se o índice acumulasse queda de 20%. A instituição explicou que tomou a decisão inicial ainda na fase de formação dos preços, quando o comportamento teórico do mercado indicava perdas superiores a esse percentual.

Segundo a B3, a medida buscou proteger os investidores e preservar o funcionamento do mercado diante das oscilações observadas após o resultado eleitoral.

O Magazine Luiza (MGLU3) acumulava queda próxima de 60%. O Banco do Brasil (BBAS3), que concentrava o maior volume de negociações naquele momento, registrava desvalorização de aproximadamente 28%.

A retração dos papéis de empresas brasileiras acompanhou a elevação dos juros futuros e a busca dos investidores por proteção cambial. O movimento também refletiu uma revisão das expectativas para a economia nacional após a definição da disputa presidencial.

No mercado de moedas, o dólar avançava 8,5%, para R$ 5,42. Durante a sessão, a cotação da moeda norte-americana ultrapassou R$ 5,60, antes de reduzir parte dos ganhos.

O petróleo Brent, referência para os preços internacionais e para o mercado brasileiro, apresentava pequena desvalorização, com o barril negociado em torno de US$ 116.

A reação dos investidores está relacionada à diferença entre o resultado das eleições e o cenário que parte do mercado havia incorporado aos preços dos ativos. Depois do primeiro turno, agentes financeiros passaram a considerar a possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro como referência para suas operações.

Na avaliação desses investidores, a eleição do senador poderia representar uma mudança na política fiscal, com medidas destinadas a conter a expansão da dívida pública e reduzir as expectativas de inflação e juros.

Essa interpretação também enfrenta contradições nas propostas apresentadas durante a campanha. O próprio Flávio Bolsonaro anunciou medidas que poderiam limitar a realização de um ajuste fiscal mais rigoroso, apesar de defender maior controle das contas públicas.

O estrategista-chefe da Avenue, William Castro Alves, explicou ao Valor Investe que o resultado eleitoral provocou uma revisão das posições assumidas pelos participantes do mercado após o primeiro turno.

“Os sinais apontam para uma queda expressiva do Ibovespa, revertendo boa parte do movimento que vimos após o primeiro turno, quando a vitória de Flávio alimentou a expectativa de uma política econômica mais favorável ao mercado e mais comprometida com o fiscal”, afirma William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue. “Com isso, o trade eleitoral perde força”, diz.

A avaliação indica que investidores passaram a desfazer operações estruturadas com base na possibilidade de alternância no comando do Executivo. O processo de ajuste envolve ações, câmbio e contratos de juros futuros.

A continuidade da volatilidade dependerá, entre outros fatores, das sinalizações do governo sobre a condução da política fiscal e de eventuais compromissos com o equilíbrio das contas públicas.

A reação internacional ao resultado eleitoral também apareceu antes da abertura dos negócios no Brasil. O EWZ, principal fundo de índice de ações brasileiras negociado na Bolsa de Nova York, registrou queda de 27% nas operações anteriores ao início do pregão.

O fundo permite que investidores estrangeiros tenham exposição ao mercado acionário brasileiro. Por essa característica, suas oscilações funcionam como um indicador da disposição de agentes internacionais para investir em empresas do país.

A desvalorização do EWZ antecipou o movimento que atingiu a B3 e reforçou a percepção de que parte relevante dos investidores precisava reposicionar suas carteiras após a vitória de Lula.

A instabilidade financeira ocorre um dia depois de Luiz Inácio Lula da Silva garantir sua quarta eleição à Presidência da República. O petista conquistou 64,2 milhões de votos, equivalentes a 51,8% dos válidos, contra 59,8 milhões, ou 48,2%, de Flávio Bolsonaro.

O resultado representou uma mudança em relação ao primeiro turno, quando o senador do PL terminou na liderança. A vitória de Lula contrariou projeções de investidores que apostavam em uma mudança de governo a partir de 2027.

Durante o pronunciamento após a confirmação do resultado, o presidente reeleito afirmou que pretende “governar para todos os 215 milhões de brasileiros” e indicou disposição para negociar com o Congresso Nacional.

O petista também declarou que seu próximo mandato terá características diferentes das administrações anteriores. Em seu discurso, criticou a interferência das grandes empresas de tecnologia no processo eleitoral e defendeu a regulamentação das plataformas digitais.

O presidente agradeceu ainda ao vice-presidente Geraldo Alckmin e ao deputado federal André Janones (Rede-MG), que participou da estratégia de comunicação digital da campanha petista.

Após o pronunciamento de Lula, o senador Flávio Bolsonaro contestou a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a prorrogação da votação por duas horas.

O candidato derrotado afirmou que considerava “impossível” reconhecer o resultado diante da alteração no horário de votação e anunciou a intenção de solicitar a anulação do segundo turno.

Especialistas em direito eleitoral avaliam que a tentativa de reverter o resultado enfrenta obstáculos jurídicos e que uma eventual revisão dependeria de fundamentos e provas capazes de sustentar a contestação.

Enquanto a disputa política prossegue, o mercado financeiro acompanha as próximas manifestações do governo sobre a política econômica. A reação dos investidores nesta segunda-feira evidencia a revisão das expectativas após a reeleição de Lula, com reflexos imediatos sobre o valor das ações brasileiras, a cotação do dólar e os juros futuros.