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Vorcaro perguntou a Moraes se deveria deixar o País dois dias antes de ser preso

“Pelo amor de Deus, veja se você consegue bloquear toda maldade. Como eu disse não temos nada, nem o Banco Central abriu sequer um processo administrativo, e eles me auditam todos os dias. Estou pronto pra ir em qualquer um...

Vorcaro perguntou a Moraes se deveria deixar o País dois dias antes de ser preso

“Acha que segunda já tenho que estar fora?”.

O banqueiro Daniel Vorcaro perguntou ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), se deveria deixar o Brasil dois dias antes de ser preso pela Polícia Federal (PF). A mensagem, enviada em 15 de novembro de 2025, integra uma sequência de conversas nas quais o então dono do Banco Master buscava informações sobre possíveis medidas da Operação Compliance Zero.

Segundo reportagem do Estado de São Paulo, que teve acesso às mensagens extraídas do celular de Vorcaro, o banqueiro consultou Moraes naquele sábado: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Dois dias depois, na noite de 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela PF quando tentava embarcar em um jato particular com destino a Malta e, posteriormente, Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

Investigadores sustentam que Vorcaro pretendia fugir do País. Na ocasião, o banqueiro buscava concluir a venda do Banco Master a um consórcio formado pela Fictor Holding Financeira e investidores dos Emirados Árabes Unidos. O negócio não avançou após a prisão e a liquidação do banco pelo Banco Central, decretada em 18 de novembro.

Procurados pelo Estadão, Moraes e a defesa de Vorcaro não se manifestaram.

Perguntas sobre prisão e operação da PF
As conversas reveladas pela reportagem começaram em 4 de novembro de 2025 e ganharam intensidade à medida que se aproximava a deflagração da operação. De acordo com investigadores ouvidos pelo jornal, as mensagens permitem levantar a hipótese de que Vorcaro recebia informações sensíveis sobre medidas que poderiam ser adotadas pela Polícia Federal.

No dia 15, após receber uma mensagem de Moraes cujo conteúdo não foi recuperado, Vorcaro demonstrou surpresa: “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo.”

Na sequência, o banqueiro fez uma série de questionamentos ao ministro: “Aquele mesmo juiz Ricardo? E o (Gabriel) Galípolo (presidente do Banco Central) tá sabendo? Conseguimos fazer algo?”.

No dia seguinte, 16 de novembro, Vorcaro voltou a procurar Moraes. “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”, perguntou.

Naquele momento, a prisão preventiva ainda não havia sido formalmente decretada pelo juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal. Segundo o Estadão, a decisão foi assinada às 15h29 de 17 de novembro, horas antes da prisão de Vorcaro no Aeroporto Internacional de São Paulo.

Às 17h26 daquele mesmo dia, o banqueiro ainda perguntou a Moraes: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.

Mensagens de Moraes não foram recuperadas
O material extraído do aparelho de Vorcaro não permite reconstruir integralmente o diálogo. Segundo a reportagem, o banqueiro e Moraes utilizavam mensagens de visualização única, inclusive por meio de imagens de textos escritos no aplicativo de notas do celular.

Por esse motivo, a extração do aparelho recuperou mensagens e imagens enviadas por Vorcaro, mas não permitiu acessar eventuais respostas do ministro. Assim, não é possível estabelecer, apenas com o conteúdo apresentado, o teor das orientações ou informações que Moraes teria enviado ao banqueiro.

Em 4 de novembro, no início da sequência analisada pelos investigadores, Vorcaro perguntou: “Médio a grave seria busca ou quebra de sigilo?”.

Em seguida, insistiu: “Mas pedido deferido por parte deles? Algo que dê pra bloquear?”.

Para investigadores e peritos consultados pelo Estadão, as perguntas podem indicar que o banqueiro havia recebido algum tipo de alerta sobre possíveis medidas cautelares. Em outra mensagem, Vorcaro escreveu: “Só vai saber qdo ele chamar né”.

“Pelo amor de Deus, veja se você consegue bloquear toda maldade”
As mensagens também mostram a preocupação de Vorcaro com o impacto que uma operação policial poderia provocar sobre o Banco Master.

Ainda em 4 de novembro, ele afirmou: “Essa minha maior preocupação”, depois de dizer que, caso fosse adotada uma medida contra ele naquele momento, “vai tudo por água abaixo”.

Às 19h09, Vorcaro informou a Moraes que permaneceria esperando novas informações: “Vou ficar acordado então aqui pra te aguardar.”

Cerca de uma hora e meia depois, o banqueiro voltou a escrever ao ministro:

“Pelo amor de Deus, veja se você consegue bloquear toda maldade. Como eu disse não temos nada, nem o Banco Central abriu sequer um processo administrativo, e eles me auditam todos os dias. Estou pronto pra ir em qualquer um explicar qualquer coisa, mas uma medida drástica agora literalmente quebra o banco de modo irreversível. Se puder me deixe uma mensagem após falar com ele”.

Em seguida, acrescentou: “Se fosse possível saber o que é, entramos imediatamente”.

Segundo o Estadão, Vorcaro também pediu reiteradamente que Moraes interviesse junto ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, diante do avanço das investigações.

“Conseguiu bloquear a maldade?”
Dois dias depois, em 6 de novembro, Vorcaro enviou cinco perguntas seguidas a Moraes: “Como estamos aí? Conseguiu bloquear a maldade? Isso é Brasília? Sabe o tema? Está seguro ou tem que entrar agora urgente?”.

O banqueiro também relatou ao ministro conversas com o criminalista Pierpaolo Cruz Bottini, que atuava em sua defesa naquele momento.

“Ele disse que teria que justificar pq estaria pedindo tá. Eu falei pra fazer de toda forma”, escreveu.

Em outra mensagem, acrescentou: “O Píer acha que se entrar do nada pode acelerar algo, sem justificativa. Ele fez pedido macro, e acredita que vão jogar pra essa vara. O que acha?”.

Bottini foi procurado pelo Estadão e não se manifestou.

Em 7 de novembro, Vorcaro afirmou não ter “qualquer preocupação para tratar da parte técnica” com os investigadores, mas demonstrou receio dos efeitos de uma ação policial sobre o banco.

“Problema de tudo só é se sair algo mesmo”, escreveu. Depois, acrescentou: “Amanhã vamos ver se conseguimos puxar do lado de cá”.

Últimas mensagens antes da prisão
Na manhã de 17 de novembro, horas antes de ser preso, Vorcaro informou a Moraes que tentava antecipar a entrada de investidores e acreditava ser possível assinar e anunciar parte da operação de venda do Master.

O banqueiro também demonstrou preocupação com informações que começavam a circular sobre a investigação.

“De outro lado, acho que o tema que falamos começou a dar uma vazada, obviamente sem qualquer detalhes. Mas a turma do brb me disse que tá tendo um movimento de sacanagem do caso. E que a mesma jornalista de antes estava fazendo perguntas lá. Se vazar algo será péssimo mas pode ser um gancho pra entrar no circuito do processo.”

“Se tiver alguma novidade vamos falar”, acrescentou.

Ainda naquele dia, Vorcaro seria detido pela Polícia Federal.

Caso chegou ao Supremo
A Operação Compliance Zero avançou mesmo após os pedidos registrados nas mensagens. Segundo o Estadão, a investigação já chegou a dez fases. Vorcaro, que havia sido solto em 29 de novembro de 2025 por decisão da Justiça Federal, voltou a ser preso em 4 de março.

O processo inicialmente tramitava na primeira instância, mas chegou ao STF em dezembro de 2025, por determinação do ministro Dias Toffoli, após serem identificadas transações imobiliárias envolvendo Vorcaro e o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA), que possui foro por prerrogativa de função.

Toffoli posteriormente deixou a relatoria depois da divulgação de informações envolvendo a Maridt S.A., empresa ligada à família do ministro que possuía participação societária no resort Tayayá. Segundo o Estadão, cotas do empreendimento haviam sido negociadas com fundos e pessoas ligadas ao entorno de Vorcaro.

A relatoria passou então para o ministro André Mendonça.

Vorcaro também tentou, em duas ocasiões, negociar um acordo de colaboração premiada. As propostas foram rejeitadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República. Segundo a reportagem, o banqueiro busca atualmente uma terceira oportunidade para tentar fechar um acordo.