
"Afirmei que o Poder Judiciário é independente no Brasil tanto quanto aqui e que não se curvará a pressões externas. Nesse sentido, o governo brasileiro se reserva o direito de responder às medidas adotadas pelos EUA", disse o chanceler brasileiro.
No mesmo dia em que o governo dos EUA anunciaram sanções financeiras da Lei Global Magnitsky ao ministro do STF Alexandre de Moraes e assinaram ordem executiva que impõe tarifa de 50% a alguns produtos brasileiros, como carne e café, o chanceler do Brasil, Mauro Vieira, se deslocou de Nova York até Washington. O ministro chegou à capital dos EUA para tentar destravar negociações com a gestão Donald Trump e encontrou-se com o secretário de Estado, Marco Rubio.
No início da noite de hoje, o chanceler Mauro Vieira leu uma declaração escrita por ele próprio sobre o encontro, na Embaixada do Brasil em Washington:
“Encontrei-me hoje em Washington com o Secretario de Estado Marco Rubio pra discutir o estado atual da relação bilateral. Reiterei que o Brasil está aberto a dar segmento às negociações comerciais iniciadas em 7 de março deste ano e paralisadas desde a divulgação da carta do presidente Trump de 9 de julho corrente”, disse Vieira, sem, ao final, permitir perguntas dos jornalistas.
A reunião entre ele e Rubio, previamente marcada para às 13h15 no horário local, ocorreu quando a sanção contra Alexandre de Moraes já havia sido publicada. A ordem executiva do tarifaço ainda não estava assinada, mas o cenário já não era favorável ao Brasil.
Por fim, a reunião aconteceu entre 13h30 e 14h, em um local não revelado pertencente ao intermediador que facilitou o encontro entre as duas autoridades. Nem a Embaixada do Brasil nem o Departamento de Estado foram palco do encontro. O nome do interlocutor de ambos, que ajudou a concretizar a conversa, tem sido mantido anônimo. A reunião não constava da agenda pública de Rúbio. Esse foi o primeiro encontro do chanceler brasileiro com Rubio, desde a posse de Trump.
“Enfatizei que é inaceitável e descabida a ingerência na soberania nacional no que diz respeito a decisões do Poder Judiciario do Brasil, inclusive a condução do processo judicial do qual é réu o ex-presidente (Jair) Bolsonaro. Afirmei que o Poder Judiciário é independente no Brasil tanto quanto aqui e que não se curvará a pressões externas. Nesse sentido, o governo brasileiro se reserva o direito de responder às medidas adotadas pelos EUA”, disse o chanceler brasileiro.
Vieira vinha tentando costurar uma agenda de nível ministerial com os norte-americanos há cerca de duas semanas e chegou a enviar um emissário para Washington, para verificar a conveniência de sua presença no país e se haveria possibilidade de encontros bilaterais para abrir negociação. Por enquanto, a Casa Branca não demonstrou interesse em abrir negociações comerciais se não for tratado o caso judicial de Bolsonaro, que Trump chama de “caça às bruxas”.
Vieira embarcou no fim de semana sem ter sinal verde algum da gestão Trump, e foi a Nova York para um evento da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a crise na Palestina e a solução de dois Estados, que terminou ontem. O ministro, porém, não deixou Nova York ontem, como anteriormente previsto. Apenas na manhã de hoje ele se deslocou a Washington, para o encontro com Rubio.
“Ao final do encontro concordamos com a necessidade de manter diálogo para solucionar os problemas bilaterais. Volto hoje à noite ao Brasil e relatarei, ao chegar, ao Presidente Lula, o teor das conversas que mantive nos EUA de forma a definir as respostas do Brasil diante das medidas anunciadas hoje pelos Departamentos de Estado, do Tesouro, bem como da Casa Branca”, finalizou Vieira.
O chanceler se referia tanto à sanção da Lei Global Magnitsky aplicada ao ministro Moraes, quanto ao decreto assinado hoje pelo presidente Donald Trump, que implementa uma taxa adicional de 40% sobre as tarifas de 10% que já estavam em vigor para os produtos exportados pelo Brasil aos Estados Unidos, totalizando 50%. A nova ordem executiva prevê uma série de isenções, inclusive para suco de laranja, petróleo e aeronaves.
A nova sanção passará a valer em sete dias, para produtos que entrarem no país ou saírem de um armazém onde já estejam estocados para o consumo. Produtos brasileiros que já estão a caminho dos EUA não serão taxados.
O Departamento de Estado foi questionado pela coluna sobre o local do encontro e o teor da reunião, mas ainda não respondeu.





