
A urgência do Brasil em garantir fertilizantes intensificou-se com o agravamento do conflito no Irã, que provocou uma crise logística de grande escala.
Em um momento de crescente tensão geopolítica com os Estados Unidos, a China fez mais um gesto de aproximação com o governo brasileiro ao sinalizar que pode ampliar a oferta de fertilizantes ao país. A sinalização atende a uma demanda estratégica da diplomacia brasileira para conter potenciais impactos no agronegócio causados por crises internacionais de abastecimento, informa o jornal O Globo.
Apesar de o tema das tarifas norte-americanas não ter entrado na pauta do encontro de vinte minutos, o chanceler brasileiro fez questão de reconhecer o gesto positivo de Pequim no âmbito do abastecimento agrícola. Um comunicado enviado esta semana pelo Ministério do Comércio chinês à embaixada do Brasil em Pequim indicou que o país asiático está disposto a atender a novas demandas brasileiras para o fornecimento de fertilizantes fosfatados e nitrogenados. A partir desse aval estatal, caberá agora ao setor privado brasileiro negociar diretamente os volumes das compras.
Essa oferta chinesa responde diretamente à gestão diplomática iniciada no mês passado por Mauro Vieira durante visita oficial a Pequim, quando se reuniu com o ministro do Comércio da China, Wang Wentao. Naquela mesma ocasião, o Brasil já havia conquistado outro avanço relevante: a declaração das autoridades chinesas de que o território brasileiro está livre da febre aftosa, o que resultou no fim das barreiras sanitárias para a importação de carne bovina do país.
A vulnerabilidade brasileira no setor é alta: mais de 80% dos fertilizantes consumidos na agricultura nacional dependem de importações. Do total importado, cerca de metade é fornecida conjuntamente por China e Rússia. Por esse motivo, o Itamaraty tem concentrado seus esforços em Pequim e Moscou para assegurar o fluxo contínuo de insumos e evitar o desabastecimento no campo.
Aproveitando a agenda em Manila, Mauro Vieira também se reuniu reservadamente com o chanceler russo, Sergei Lavrov, para discutir o fornecimento desses mesmos insumos agrícolas.
Além das reuniões com as potências chinesa e russa, a agenda do chanceler brasileiro nas Filipinas nesta quinta-feira (23) incluiu encontros bilaterais com os ministros das Relações Exteriores de Timor-Leste, Cingapura e Reino Unido. O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, também compareceu ao evento da Asean, mas não houve previsão de agenda de reuniões entre a delegação brasileira e o representante norte-americano.
Os indicadores econômicos sustentam essa inflexão geopolítica do Brasil em direção ao Oriente. O comércio bilateral entre o Brasil e os países da Asean saltou de US$ 2,9 bilhões em 2002 para US$ 38,3 bilhões no ano passado, registrando superávit a favor dos cofres brasileiros.
Um comparativo do governo federal evidencia a mudança do eixo econômico global: ao longo dos últimos três anos, o volume exportado pelo Brasil para os cinco maiores mercados da Asean (Cingapura, Indonésia, Vietnã, Malásia e Tailândia) igualou-se ao volume enviado para os cinco mercados tradicionais do G7 (Alemanha, Itália, Reino Unido, Japão e França). A vantagem do bloco asiático sobre as economias do G7 reside na balança comercial: enquanto o comércio com o grupo ocidental gerou déficit, as trocas com os cinco países da Asean resultaram em um superávit brasileiro acumulado de cerca de US$ 36 bilhões entre os anos de 2023 e 2025.





