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‘Horrorizada’, ONU cobra investigações sobre mortes no Rio

"Esta operação mortal reforça a tendência de consequências letais extremas das operações policiais em comunidades marginalizadas do Brasil", afirmou. "Lembramos às autoridades suas obrigações perante o direito internacional dos direitos humanos e instamos investigações rápidas e eficazes", pediu o órgão...

'Horrorizada', ONU cobra investigações sobre mortes no Rio

"Esta operação mortal reforça a tendência de consequências letais extremas das operações policiais em comunidades marginalizadas do Brasil", afirmou. "Lembramos às autoridades suas obrigações perante o direito internacional dos direitos humanos e instamos investigações rápidas e eficazes", pediu o órgão da ONU.

O Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos pede que as mortes na operação policial de hoje no Rio de Janeiro sejam investigadas de forma rápida. O alerta se refere à megaoperação envolvendo todas as forças de segurança que hoje prendeu dezenas de criminosos suspeitos de ligação com o CV (Comando Vermelho) e resultou na morte de ao menos 64 pessoas. Com isso, se tornou a ação policial mais letal da história do estado fluminense.

“Estamos horrorizados com a operação policial em andamento nas favelas do Rio de Janeiro, que já teria resultado na morte de mais de 60 pessoas, incluindo quatro policiais”, disse a entidade, nas redes sociais.

“Esta operação mortal reforça a tendência de consequências letais extremas das operações policiais em comunidades marginalizadas do Brasil”, afirmou. “Lembramos às autoridades suas obrigações perante o direito internacional dos direitos humanos e instamos investigações rápidas e eficazes”, pediu o órgão da ONU.

Além das 64 pessoas mortas, sendo quatro policiais, segundo a Polícia Civil, outras nove pessoas foram baleadas: três moradores e seis agentes, quatro civis e dois militares. Entre os mortos, estão lideranças da facção em outros estados que estavam refugiados na região. Número de mortos na Operação Contenção superou o da ação policial na favela do Jacarezinho, em 2021.

A ONU não foi a única a se pronunciar. César Muñoz, diretor da Human Rights Watch no Brasil, afirmou que “uma operação policial que resulta na morte de mais de 60 moradores e policiais é uma enorme tragédia”.

“O Ministério Público deve instaurar investigações próprias e elucidar as circunstâncias de cada morte. Também deve apurar o planejamento e as decisões do comando da polícia e das autoridades do Rio que levaram a uma operação que foi um desastre”, defendeu.

Segundo a entidade, “a sucessão de operações letais que não resultam em maior segurança para a população, mas que na verdade causam insegurança, revela o fracasso das políticas do Rio de Janeiro”.

“O Rio precisa de uma nova política de segurança pública, que pare de estimular confrontos que vitimizam moradores e policiais”, afirmou. “Ao invés disso, deveria envolver as próprias comunidades e outros atores sociais na busca da paz e basear o trabalho da polícia em dados precisos sobre a atividade criminal, privilegiando a investigação e a inteligência, inclusive através de perícias de qualidade realizadas com total independência, e desarticulando o tráfico de armas, a lavagem de dinheiro e os vínculos entre grupos criminosos e agentes do Estado”.

A violência policial sempre esteve entre as principais denúncias feitas pela ONU em relação à situação de direitos humanos no Brasil. O alerta chegou a fazer parte dos relatórios que a entidade preparou sobre o comportamento das forças de ordem no contexto do racismo e de operações em comunidades.

Naquele momento, um documento foi elaborado pelo relator da ONU para o combate à tortura, Nils Melzer, o relator sobre execuções sumárias, Morris Tidball-Binz, e mais três especialistas da entidade que alertam o Brasil sobre o comportamento da polícia.

Em resposta a acusação feita por relatores da ONU sobre as 28 mortes registradas durante ação policial na comunidade do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, o governo brasileiro afirmou que que vem adotando a “inclusão dos direitos humanos e promoção da cultura da paz no treinamento dos policiais no combate ao crime”.

Antes, em 2019, o então presidente Jair Bolsonaro chegou a atacar Michelle Bachelet, que ocupava o cargo naquele momento de alta comissária de Direitos Humanos. Ela havia denunciado a violência policial.