×

Bolsonaro tentou barrar transferência de Marcola e chefes do PCC, diz Moro em livro

Ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Moro relatou que, no início da gestão, Bolsonaro chegou a cancelar a transferência da cúpula do PCC. Um vídeo de Alckmin contando essa história está viralizando nas redes em meio à designação de PCC...

Bolsonaro tentou barrar transferência de Marcola e chefes do PCC, diz Moro em livro

“O Moro escreve no seu livro: Bolsonaro lhe manda um e-mail pedindo o cancelamento, que não fosse feita a transferência”, acrescentou Alckmin.

Quando presidente, Jair Bolsonaro não quis transferir para presídios federais lideranças criminosas do Primeiro Comando da Capital (PCC). A informação está num livro de autoria do senador Sergio Moro chamado “Contra o Sistema da Corrupção” (em liquidação na Amazon, como sói acontecer com as obras do ex-chefão da Lava Jato).

Ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Moro relatou que, no início da gestão, Bolsonaro chegou a cancelar a transferência da cúpula do PCC. Um vídeo de Alckmin contando essa história está viralizando nas redes em meio à designação de PCC e CV como organizações terroristas pelos EUA e à hipocrisia de Flávio Bolsonaro, parceiro de milicianos e de Daniel Vorcaro, que posa de justiceiro.

Candidato a governador do Paraná, Moro é aliado de Flávio Bolsonaro, com quem posa em comícios e convescotes. A fala de Alckmin ocorreu numa coletiva após o debate realizado pela Globo entre Lula e Bolsonaro em 2022. Ele lembrou que Jair Bolsonaro tentou impossibilitar que Marcola, líder da facção, fosse para o sistema penitenciário federal.

“‘Há poucos dias da deflagração da Operação Imperium, fui surpreendido por uma mensagem dele [Bolsonaro] no meu celular, sugerindo cancelamento das transferências. Bolsonaro disse estar receoso de possíveis retaliações do crime organizado contra a população civil e temia que, se isso acontecesse, o governo federal fosse responsabilizado, inclusive com impeachment no Congresso’”, leu Alckmin para os jornalistas.

A Operação Imperium foi realizada em fevereiro de 2019, ainda no início do governo Bolsonaro. Vinte e dois integrantes do PCC foram levados de presídios paulistas para penitenciárias em Rondônia, Brasília e Rio Grande do Norte.

“A transferência foi pedida antes do Bolsonaro assumir pelo Ministério Público de São Paulo, e foi autorizada no começo de 2019 por ordem do Tribunal de Justiça de São Paulo. Não foi o Bolsonaro quem pediu. Foi o MP. Quem autorizou foi o Judiciário, e o Bolsonaro, diz o Moro, tentou impedir a transferência do Marcola. Essa é a realidade”, disse Alckmin.

Moro dedicou um capítulo ao tema, intitulado “Um golpe no PCC”. Ele relata que no período de transição do governo federal, de novembro a dezembro de 2018, deu início às tratativas com o então governador eleito de São Paulo João Doria. Doria apoiou a remoção desde o primeiro momento, “sem vacilos”. Moro declarou que sem ele nada teria sido possível.

A transferência foi protelada por algumas semanas por causa de atentados no Ceará, de uma viagem a Davos (onde Bolsonaro protagonizou vexames antológicos), e da internação em janeiro de 2019 para cirurgias no abdômen no Hospital Albert Einstein. “Se o PCC quisesse retaliar o governo federal, não seria o hospital um alvo possível?”, questionou Moro no livro.

Ele prosseguia: “Desde o início do planejamento da operação, ainda durante a transição de governo, eu havia comunicado Bolsonaro sobre a intenção de transferir as lideranças do PCC para os presídios federais. Como a medida poderia ter consequências significativas, como retaliações terroristas, havia a necessidade óbvia de informar o presidente sobre ela. Ele concordou com a ação, que seguia a política de ser firme com o crime organizado, conforme prometera durante a campanha. Mas, a poucos dias da deflagração da Operação Imperium, fui surpreendido com uma mensagem dele no meu celular sugerindo o cancelamento das transferências. Bolsonaro disse estar receoso de possíveis retaliações do crime organizado contra a população civil e temia que, se isso acontecesse, o governo federal fosse responsabilizado, inclusive com impeachment no Congresso.”

Moro marcou uma visita ao hospital, ao lado dos generais Fernando Azevedo, então Ministro da Defesa, e Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional.

“Embora Jair Bolsonaro ainda estivesse apreensivo sobre possíveis consequências, a minha impressão é de que, mesmo antes da nossa conversa, ele já havia mudado de opinião e decidido que a operação deveria prosseguir. Ao que tudo indica, os receios dele foram superados antes da minha ida ao hospital, após receber a visita de autoridades do governo de São Paulo que também sabiam da operação”, relatou Moro.

Marcola está em cana desde 1999, com passagens por diversos presídios e penas que somam mais de 300 anos. Desde janeiro de 2023 encontra-se trancafiado em Brasília, decisão tomada pelo então ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, para evitar um plano de fuga ou resgate. A família Bolsonaro, Moro e Trump estão soltos.