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Na contramão do mundo, democracia avança no Brasil com Lula, aponta estudo global

Três fatores são apontados como decisivos para essa resistência: a mobilização da sociedade civil, a atuação do Poder Judiciário — com destaque para as ações do STF contra os responsáveis pela tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023...

Na contramão do mundo, democracia avança no Brasil com Lula, aponta estudo global

“O Brasil enfrentou uma forte crise, mas se recuperou antes de se tornar um regime autoritário”, analisa Tiago Fernandes, diretor do V-Dem Europa do Sul.

Enquanto a maior parte do mundo enfrenta o avanço do autoritarismo, o Brasil é citado como uma exceção. Segundo o Relatório da Democracia 2025, produzido pelo Instituto Variedades de Democracia (V-Dem), com sede na Universidade de Gotemburgo, na Suécia, o país é um dos poucos que reverteram a tendência de autocratização. O estudo é considerado a principal referência global sobre o estado das democracias.

De acordo com o levantamento, hoje existem 88 democracias e 91 autocracias no mundo. Pela primeira vez em mais de meio século, a maioria da população global vive sob regimes autoritários.

O relatório destaca que o Brasil começou a perder qualidade democrática após o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e aprofundou esse processo durante o governo de Jair Bolsonaro (2019–2022). Ainda assim, o país conseguiu evitar o colapso democrático. “O Brasil enfrentou uma forte crise, mas se recuperou antes de se tornar um regime autoritário”, analisa Tiago Fernandes, diretor do V-Dem Europa do Sul.

Três fatores são apontados como decisivos para essa resistência: a mobilização da sociedade civil, a atuação do Poder Judiciário — com destaque para as ações do STF contra os responsáveis pela tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023 — e a formação de uma frente política pró-democracia, que incluiu partidos do centrão que se afastaram de Bolsonaro nas eleições de 2022, viabilizando a vitória de Lula.

Apesar dos avanços, Fernandes alerta que a ameaça autoritária não está extinta e pode ressurgir sob uma nova liderança populista. Ele também vê ambiguidade no posicionamento internacional do governo Lula: embora o Brasil tenha se alinhado com o Chile na defesa da democracia latino-americana, ainda mantém laços com regimes autoritários como Rússia, China e Irã por meio do BRICS.

O relatório também rebate críticas comuns ao STF, especialmente à atuação do ministro Alexandre de Moraes. Para Fernandes, essas acusações fazem parte de um discurso simplista, típico de movimentos autoritários. “É uma narrativa de ódio, que divide o mundo entre amigos e inimigos. Alimenta versões paralelas da realidade”, diz.

Na avaliação de Fernandes, a volta de Bolsonaro ao poder é improvável. “O movimento político que ele liderava foi desmantelado. Ao contrário dos Estados Unidos, onde Trump não só não foi preso como voltou à presidência, no Brasil Bolsonaro está sendo julgado e pode ser condenado”, afirmou. Ainda assim, ele alerta: “Esse tipo de movimento autoritário pode ressurgir com outro nome e outro rosto. Por isso, é essencial manter vigilância constante sobre as instituições democráticas”.

O clima se intensificou com a ameaça do presidente dos EUA, Donald Trump, de impor tarifas de 50% aos produtos brasileiros caso Jair Bolsonaro não seja anistiado.

O estudo do V-Dem analisa mais de 600 indicadores em 202 países desde 1789, com participação de 4.200 especialistas. Na América Latina, o Brasil figura entre os cinco países em processo de redemocratização, junto com Bolívia, Equador, República Dominicana e Honduras. Em contrapartida, sete países da região estão em regressão democrática, entre eles Argentina, El Salvador, México e Peru.

A edição de 2025, publicada também em português, inclui pela primeira vez uma seção dedicada aos países lusófonos, ampliando o alcance das análises para além do eixo Europa–Estados Unidos.