
A conversão da prisão indica que, para a investigação, a permanência do investigado preso deixou de ter caráter temporário e passou a ser tratada como medida preventiva no âmbito do processo.
Felipe Cançado Vorcaro, primo do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, teve a prisão preventiva decretada por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Investigado na Operação Compliance Zero, ele é apontado como suspeito de articular operações financeiras relacionadas ao esquema envolvendo o Banco Master. A informação sobre a determinação do magistrado foi publicada nesta segunda-feira (18) pelo jornal O Estado de S.Paulo.
A decisão converteu a prisão temporária de Felipe Cançado Vorcaro em preventiva, ampliando o período de custódia do investigado. Ele foi preso durante a quinta fase da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas ligadas a operações financeiras do Banco Master.
Felipe Cançado Vorcaro é primo de Daniel Vorcaro, controlado do Banco Master. A suspeita contra ele envolve a articulação de operações financeiras relacionadas ao esquema investigado.
Felipe Cançado Vorcaro, Daniel Vorcaro e nem os representantes do Banco Master se manifestaram sobre a decisão. Também não foram apresentadas falas de defesa ou manifestação do Supremo Tribunal Federal além do registro da conversão da prisão.
O caso segue como mais um desdobramento da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas relacionadas ao Banco Master e às operações financeiras atribuídas aos investigados.
A operação
A Operação Compliance Zero completou seis meses nesta segunda-feira (18) com uma investigação sobre fraude bilionária no Banco Master que, segundo a Polícia Federal, pode configurar a maior ofensiva já registrada contra o Sistema Financeiro Nacional, com potencial prejuízo de dezenas de bilhões de dólares.
De acordo com a Agência Brasil, as seis fases da operação, executadas até 14 de maio, levaram o Judiciário a decretar 21 prisões temporárias ou preventivas, além de 116 mandados de busca e apreensão. A Justiça também autorizou bloqueios e sequestros de bens que somam cerca de R$ 27,71 bilhões.
A investigação colocou no centro das apurações o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A PF afirma que ele comandava um esquema com conexões políticas, empresariais e institucionais. A apuração também alcançou diretores do Banco Central, servidores públicos de alto escalão e agentes da própria Polícia Federal.
Os mandados alcançaram alvos em sete unidades da Federação: Bahia, Minas Gerais, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e Distrito Federal. O caso mobilizou decisões da Justiça Federal e do Supremo Tribunal Federal, que autorizaram prisões, buscas, bloqueios financeiros e medidas contra investigados ligados ao Banco Master, ao Banco de Brasília e a outros núcleos apontados pela PF.
As investigações começaram no início de 2024, após pedido do Ministério Público Federal. Desde então, a Polícia Federal reuniu elementos sobre a suposta criação de ativos sem lastro, movimentações financeiras suspeitas, pagamento de vantagens indevidas, interferência política e possível atuação de uma estrutura paralela de intimidação.
A primeira etapa da Compliance Zero ocorreu em 18 de novembro de 2025. Na ocasião, a PF prendeu Daniel Vorcaro, de 42 anos, e outros seis investigados. Os agentes já analisavam havia quase um ano indícios de “fabricação de carteiras de crédito sem lastro financeiro”.
Segundo a investigação, esses títulos teriam chegado ao Banco de Brasília. Após fiscalização do Banco Central, os responsáveis teriam trocado os ativos por outros papéis sem avaliação técnica adequada.
Além de Vorcaro, a PF prendeu Augusto Ferreira Lima, ex-CEO e sócio do Banco Master, Luiz Antônio Bull, diretor de Riscos, Compliance e Operações do banco, Alberto Felix de Oliveira Neto, superintendente executivo da instituição, Ângelo Antônio Ribeiro da Silva, sócio do Master, André Felipe de Oliveira Seixas Maia e Henrique Souza e Silva Peretto.
A 10ª Vara Federal de Brasília também determinou o afastamento do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e do então diretor financeiro do banco estatal do Distrito Federal, Dario Oswaldo Garcia.
A deflagração ocorreu um dia após a Fictor Holding Financeira anunciar a intenção de comprar o Banco Master junto com investidores dos Emirados Árabes Unidos. Sete meses antes, a diretoria do BRB tentou adquirir o Master por cerca de R$ 2 bilhões, mas o Banco Central barrou a operação no início de setembro.
Em meio às revelações, o BC oficializou a liquidação extrajudicial de instituições financeiras do conglomerado Master, entre elas o Banco Master de Investimento, o Letsbank, a Master Corretora de Câmbio, a Will Financeira e o Banco Pleno. O órgão também tornou indisponíveis bens de controladores e ex-administradores do grupo e decretou Regime Especial de Administração Temporária no Banco Master Múltiplo S/A.
Até agora, o Fundo Garantidor de Créditos gastou cerca de R$ 49,5 bilhões para ressarcir clientes do Grupo Master, do Will Bank e do Banco Pleno. O FGC protege clientes de instituições financeiras e garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em casos de intervenção ou liquidação pelo Banco Central.
Segunda fase bloqueou mais de R$ 5,7 bilhões
Em 14 de janeiro, o Supremo Tribunal Federal autorizou a segunda fase da Compliance Zero. O ministro Dias Toffoli expediu 42 mandados de busca e apreensão e determinou o bloqueio de mais de R$ 5,7 bilhões em valores ligados aos investigados.
A PF também buscava provas de lavagem de dinheiro. O pastor Fabiano Zettel, da igreja Lagoinha de Belo Horizonte e cunhado de Daniel Vorcaro, chegou a ser detido quando tentava embarcar em um voo para os Emirados Árabes, mas obteve liberdade em seguida.
Entre os alvos da segunda fase estavam o empresário Nelson Tanure e o ex-presidente da gestora Reag Investimentos, João Carlos Mansur.
Terceira fase apontou grupo de intimidação
Daniel Vorcaro deixou a prisão dez dias após a primeira fase, por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Em 4 de março, a PF voltou a prendê-lo na terceira etapa da Compliance Zero.
A corporação afirma que encontrou no celular apreendido do banqueiro mensagens sobre a possibilidade de simular um assalto contra o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, além de outras ações violentas contra ex-empregados.
Segundo a PF, Vorcaro controlava uma milícia particular para intimidar e coagir desafetos. Ele chamava o grupo de “A Turma”. Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, chefiava a estrutura, de acordo com os investigadores.
A PF prendeu Mourão em Belo Horizonte e o levou à Superintendência da corporação. Horas depois, agentes o encontraram desacordado na cela. A PF afirma que Sicário tentou se suicidar. Ele recebeu os primeiros socorros no local e seguiu às pressas para um hospital, mas morreu.
Além de Vorcaro e Mourão, a terceira fase levou à prisão preventiva de Fabiano Zettel e do policial aposentado Marilson Roseno da Silva. A operação também cumpriu 15 mandados de busca e apreensão e bloqueou cerca de R$ 22 bilhões em bens e contas.
O STF ainda determinou que o Banco Central afastasse Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária da Diretoria de Fiscalização, e Paulo Sérgio Neves de Sousa, ex-chefe adjunto do mesmo departamento. O BC informou que os dois são suspeitos de atuar ilegalmente em favor dos interesses do Banco Master.
Quarta fase investigou corrupção de agentes públicos
A quarta fase ocorreu em 16 de abril e aprofundou a apuração sobre corrupção de agentes públicos. Com autorização do STF, a Polícia Federal prendeu preventivamente Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, e Daniel Monteiro, advogado de Vorcaro.
A operação também cumpriu sete mandados de busca e apreensão. Segundo os investigadores, Costa teria combinado com Daniel Vorcaro o recebimento de R$ 146,5 milhões em propina, com repasse por meio de imóveis. A PF afirma que reuniu provas de ao menos R$ 74 milhões em pagamentos. Costa nega as acusações.
Quinta fase chegou ao senador Ciro Nogueira
A quinta etapa da Compliance Zero ocorreu em 7 de maio e alcançou o senador Ciro Nogueira, do PP do Piauí, além de Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, e outros investigados no Distrito Federal, Minas Gerais, Piauí e São Paulo.
Ao todo, a PF executou dez mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão temporária. Ciro Nogueira, presidente do PP e ex-ministro do governo Bolsonaro, entrou na mira por suspeita de atuação política em favor dos interesses de Daniel Vorcaro.
Segundo a PF, o senador teria recebido entre R$ 300 mil e R$ 500 mil mensais, além de vantagens como custeio de viagens internacionais, hospedagens e despesas em restaurantes.
A investigação também cita uma alteração apresentada por Nogueira em agosto de 2024 à PEC nº 65/2023, que discute a autonomia do Banco Central. O texto ganhou o apelido de “Emenda Master” e propunha elevar a garantia ordinária do Fundo Garantidor de Créditos de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.
Especialistas apontaram risco à sustentabilidade do fundo. A PF sustenta que assessores do Banco Master elaboraram a emenda e a entregaram a Nogueira para que o senador a apresentasse ao Congresso como texto de sua autoria.
Felipe Cançado Vorcaro já figurava entre os alvos da segunda fase, em janeiro, mas escapou em um carrinho de golfe pouco antes da chegada da PF à casa onde estava, em Trancoso, na Bahia. Na quinta etapa, os agentes o prenderam temporariamente por suspeita de atuação como operador financeiro do esquema atribuído ao primo.
O ministro André Mendonça expediu dez mandados de busca e apreensão, bloqueou R$ 18,85 milhões em bens, direitos e valores dos investigados e determinou medidas contra Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão de Ciro Nogueira. Ele passou a usar tornozeleira eletrônica, entregou o passaporte à PF e recebeu ordem para não deixar Teresina nem manter contato com investigados ou testemunhas.
Sexta fase prendeu pai de Vorcaro e policial federal
Em 14 de maio, a sexta fase da operação cumpriu seis mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão. Um sétimo mandado resultou, dois dias depois, na prisão de Victor Lima Sedlmaier, capturado em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, em ação conjunta da PF, da Interpol e da polícia local.
Entre os alvos, a PF incluiu Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro. Os investigadores afirmam que ele participava do gerenciamento de “A Turma”, o grupo revelado na terceira fase e apontado como milícia pessoal do banqueiro.
A operação também prendeu Anderson Wander da Silva Lima, policial federal em atividade. Ele é suspeito de repassar a Daniel Vorcaro informações sigilosas sobre investigações policiais em andamento.
O ministro André Mendonça ainda determinou a transferência de Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado detido desde a terceira fase, para um presídio federal. As autoridades cumpriram a medida na sexta-feira (15).
Áudios de Flávio Bolsonaro ampliaram repercussão
Na última semana, reportagens do portal The Intercept Brasil revelaram gravações em que o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro pede dinheiro a Daniel Vorcaro. Nos áudios, o parlamentar diz que buscava financiamento para a cinebiografia de seu pai, Jair Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro admitiu a veracidade dos áudios e o teor da conversa vazada, mas negou irregularidade. Ele afirmou que todo o dinheiro fornecido por Vorcaro custeou a realização do filme Dark Horse.
Segundo o The Intercept Brasil, Vorcaro teria acertado o repasse de R$ 134 milhões à produção. Ao menos R$ 61 milhões chegaram a ser liberados. A revelação levou parlamentares a pedir investigação sobre a origem e o uso dos recursos.
No domingo (17), Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal cassado e irmão de Flávio, disse que o orçamento do filme sobre seu pai “não é caro para os padrões de Hollywood”. Ele citou a direção do estadunidense Cyrus Nowrasteh e a presença de atores estrangeiros no elenco, entre eles Jim Caviezel, intérprete de Jair Bolsonaro.
Lista de presos por fase da Compliance Zero
Na primeira fase, a PF prendeu Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master, Augusto Ferreira Lima, ex-CEO e sócio do banco, Luiz Antônio Bull, Alberto Felix de Oliveira Neto, Ângelo Antônio Ribeiro da Silva, André Felipe de Oliveira Seixas Maia e Henrique Souza e Silva Peretto.
Na terceira fase, a operação prendeu novamente Daniel Vorcaro, além de Fabiano Zettel, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, e Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado.
Na quarta fase, os mandados alcançaram Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, e Daniel Monteiro, advogado do Banco Master.
Na quinta fase, a PF prendeu Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro e sócio de empresas investigadas no âmbito da operação.
Na sexta fase, os presos foram Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, David Henrique Alves, apontado como líder do núcleo tecnológico de “A Turma”, Victor Lima Sedlmaier, Sebastião Monteiro Júnior, Anderson Wander da Silva Lima, Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos e Manoel Mendes Rodrigues, apontado como “empresário do jogo” do bicho no Rio de Janeiro.
A Compliance Zero segue como uma das principais investigações financeiras em curso no país e reúne suspeitas que passam por fraude bancária, lavagem de dinheiro, corrupção, vazamento de informações sigilosas, pressão sobre autoridades e tentativa de influência política em temas ligados ao sistema financeiro.





