
“Não é uma boa notícia para a seleção dos Estados Unidos. O presidente não deveria ter poder para obrigar a Fifa a reverter uma decisão. Mas Trump já demonstrou que se considera acima das regras”, diz analista de geopolítica Cyrus Janssen.
A decisão da Fifa de suspender a punição aplicada ao atacante Folarin Balogun após uma intervenção direta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desencadeou uma onda de críticas de políticos, jornalistas e comentaristas esportivos.
Para muitos americanos, a medida compromete a credibilidade da Copa do Mundo e poderá colocar uma mancha sobre uma eventual conquista da seleção americana.
Balogun, de 25 anos, artilheiro dos Estados Unidos no torneio, havia marcado três gols em três partidas antes de ser expulso contra a Bósnia e Herzegovina por uma entrada no zagueiro Tarik Muharemovic. O cartão vermelho, mostrado pelo árbitro brasileiro Raphael Claus após revisão do VAR, tiraria o atacante das oitavas de final contra a Bélgica.
Tudo mudou depois que Trump telefonou para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, pedindo uma revisão da decisão. A entidade então suspendeu a aplicação da punição por um período probatório de um ano, permitindo que Balogun fosse escalado normalmente.
O ex-deputado republicano Adam Kinzinger escreveu nas redes sociais que “até a Fifa entrou no esquema de corrupção da família Trump”. Segundo ele, caso os Estados Unidos conquistem a Copa, “sempre haverá uma mancha” sobre o título.
O analista de geopolítica Cyrus Janssen afirmou que o presidente criou uma situação em que a seleção americana sai perdendo independentemente do resultado.
“Não é uma boa notícia para a seleção dos Estados Unidos. O presidente não deveria ter poder para obrigar a Fifa a reverter uma decisão. Mas Trump já demonstrou que se considera acima das regras”, diz analista de geopolítica Cyrus Janssen.
O comentarista Brian Krassenstein fez avaliação semelhante.
“Se os Estados Unidos vencerem a Copa, muita gente vai questionar a legitimidade do título. Tudo em que Trump toca acaba perdendo credibilidade.”
Hipocrisia apontada por jornalistas
A jornalista Julia Ioffe chamou atenção para uma contradição envolvendo o próprio Balogun.
“A ironia é que Trump liga para a Fifa para salvar Balogun porque sabe que os Estados Unidos não conseguem vencer sem ele, embora o jogador só seja americano por causa da cidadania por nascimento que o próprio Trump tentou acabar”, escreveu.
Pressão da Casa Branca
Trump comemorou publicamente a decisão da Fifa, agradecendo à entidade por ter “revertido uma grande injustiça”.
Segundo a CBS News, além do presidente, o secretário de Estado Marco Rubio, o secretário de Comércio Howard Lutnick e Andrew Giuliani, diretor da força-tarefa da Casa Branca para a Copa do Mundo, também fizeram contatos com dirigentes da Fifa para tratar do caso.
Europa reage com indignação
Na Bélgica, a decisão foi recebida com espanto.
O técnico Rudi Garcia ironizou a mudança ao afirmar que “parecia que o dia 5 de julho havia virado 1º de abril”, em referência ao Dia da Mentira.
Comentaristas ingleses também criticaram duramente a Fifa.
O comentarista esportivo e ex-futebolista inglês Gary Neville disse que a decisão “tem um cheiro muito ruim”, enquanto Wayne Rooney foi ainda mais duro.
“Se eu fosse adversário dos Estados Unidos, estaria furioso. Acho errado em todos os sentidos. É uma vergonha absoluta”, declarou.
A repercussão reforça a percepção de que a intervenção política no caso Balogun ultrapassou os limites do futebol e abriu um debate internacional sobre a independência da Fifa e a credibilidade das decisões disciplinares durante a Copa do Mundo.





