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A Globo está onde sempre esteve: contra o Brasil e os brasileiros

A Globo é e sempre foi um dos mais poderosos aparelhos ideológicos das classes dominantes brasileiras e do imperialismo. Nos grandes confrontos sobre os destinos do País, quase invariavelmente colocou seu imenso poder de comunicação a serviço daqueles que defendem...

A Globo está onde sempre esteve: contra o Brasil e os brasileiros

O Globo integrou o campo político e midiático que combateu Getúlio Vargas, especialmente na crise que culminou no suicídio do presidente, em 24 de agosto de 1954.

Leonardo Attuch – O editorial publicado neste domingo pelo jornal O Globo, em que o grupo afirma que “não há do que se desculpar” por sua atuação durante a Lava Jato, tem pelo menos uma virtude: desfaz ilusões.

Depois de tudo o que aconteceu no Brasil na última década, depois dos 580 dias de prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, da anulação de suas condenações, do reconhecimento da parcialidade de Sergio Moro pelo Supremo Tribunal Federal no processo do tríplex e da destruição de empresas, empregos e capacidade produtiva nacional, a Globo decidiu que não tem nada a rever.

Talvez seja melhor assim. Porque a frase permite compreender que a Globo está exatamente onde sempre esteve: contra o Brasil e contra os brasileiros.

Não se trata de um desvio ocasional, de um erro jornalístico ou de uma escolha infeliz feita durante a cobertura de determinado acontecimento. Trata-se de uma posição histórica.

Essa história não começou com Lula, Dilma Rousseff ou a Lava Jato. Antes mesmo da existência da Rede Globo de Televisão, o jornal O Globo integrou o campo político e midiático que combateu Getúlio Vargas, especialmente na crise que culminou no suicídio do presidente, em 24 de agosto de 1954. A Carta-Testamento transformou a morte de Vargas numa denúncia histórica contra as forças nacionais e estrangeiras que se levantavam contra seu projeto de desenvolvimento.

A reação popular ao suicídio foi explosiva e atingiu também os veículos identificados com a campanha contra Getúlio. Carros de O Globo foram incendiados por manifestantes.

Não se trata de celebrar a violência contra empresas ou trabalhadores da imprensa, mas de registrar o tamanho da revolta e a percepção, já naquele momento, de que determinados meios de comunicação não eram simples observadores da crise brasileira. Eram atores políticos.

Enquanto milhares de brasileiros pagavam o preço da ditadura, as Organizações Globo cresceram extraordinariamente. Foi durante o regime militar que a Rede Globo se consolidou nacionalmente, construiu uma posição dominante na formação da opinião pública brasileira e adquiriu uma capacidade de influência política sem paralelo entre empresas privadas do País.

A ditadura precisava de instrumentos capazes de produzir consenso, enquanto a Globo precisava das condições políticas, econômicas e regulatórias que permitissem sua expansão. Os interesses convergiram.

Somente em 2013, quase meio século depois do golpe, a Globo reconheceu publicamente que apoiar a ruptura de 1964 havia sido um erro. O pedido de desculpas poderia ter representado um verdadeiro acerto de contas com a história, mas a Globo já preparava mais um golpe. Naquele exato momento, o Brasil começava a ingressar em um novo ciclo de desestabilização política que terminaria, três anos depois, com a derrubada da presidenta Dilma Rousseff.

Em 2016, Dilma foi afastada por um golpe parlamentar apoiado entusiasticamente pela Globo. Se em 2013 o grupo pedia desculpas por ter apoiado o golpe de 1964, três anos depois já participava da legitimação de uma nova ruptura democrática, desta vez sem tanques nas ruas.

Deste golpe, a Globo nunca pediu desculpas. E não pedirá, porque reconhecer o erro significaria admitir também responsabilidade pelos retrocessos econômicos e sociais que vieram depois – e que fazem parte do programa econômico da Globo, ou seja, do neoliberalismo.

O governo Michel Temer implementou uma agenda que jamais teria recebido respaldo popular nas urnas, com congelamento dos gastos públicos, reforma trabalhista, enfraquecimento da proteção social e redução da capacidade do Estado brasileiro de promover desenvolvimento e combater desigualdades.

Milhões de trabalhadores pagaram uma conta que não era deles. Projetos foram interrompidos, investimentos desapareceram, famílias perderam renda e a capacidade brasileira de competir em grandes obras de infraestrutura no exterior foi duramente atingida.

A Globo não apenas cobriu a Lava Jato. Transformou-a num espetáculo permanente e seus protagonistas em heróis nacionais. Procuradores e juízes passaram a ocupar o imaginário brasileiro como integrantes de uma cruzada moral supostamente acima da política, das garantias individuais e, em determinados momentos, do próprio escrutínio jornalístico que deveria acompanhar qualquer concentração extraordinária de poder.

Foi nesse ambiente que surgiu o infame PowerPoint de Deltan Dallagnol. Lula aparecia no centro de uma teia de acusações que, reproduzida massivamente pela imprensa e pela televisão, produziu perante milhões de brasileiros uma condenação política antes mesmo da condenação judicial. A presunção de inocência foi substituída pela presunção televisiva de culpa.

Em abril de 2018, a ofensiva atingiu seu objetivo principal. Lula foi condenado por Sergio Moro, preso por 580 dias e impedido de disputar a eleição presidencial daquele ano, na qual aparecia como favorito. Jair Bolsonaro venceu aquela eleição e, poucas semanas depois, o juiz que havia condenado o principal adversário do candidato vencedor abandonou a magistratura para se tornar ministro da Justiça do novo governo.

Mais tarde, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações de Lula e declarou Sergio Moro parcial no processo do tríplex. São fatos de uma gravidade histórica extraordinária. O principal candidato à Presidência foi retirado da eleição, o beneficiário político de sua ausência chegou ao Planalto e o juiz responsável pela condenação tornou-se ministro desse mesmo governo.

Sem a destruição política de Lula e sua exclusão da eleição de 2018, o fascismo e o bolsonarismo provavelmente não teriam chegado à Presidência da República. A Globo pode ter posteriormente entrado em conflito com Jair Bolsonaro, especialmente quando seu governo passou a atacá-la diretamente, mas isso não apaga sua responsabilidade na criação do ambiente político que tornou possível a ascensão da extrema direita. O fascismo bolsonarista não caiu do céu: germinou no terreno preparado pela criminalização generalizada da política, pela destruição da confiança nas instituições e pela transformação da Lava Jato numa cruzada moral.

A história produziu então uma de suas grandes ironias. O homem que havia sido preso, impedido de disputar uma eleição e submetido durante anos a um processo de destruição de reputação recuperou seus direitos políticos, derrotou Bolsonaro nas urnas e voltou à Presidência da República. Lula retornou ao Palácio do Planalto depois de sobreviver a uma das maiores operações de perseguição política da história brasileira recente.

Mesmo depois de tudo o que sofreu, Lula não transformou seu terceiro mandato numa guerra contra a Globo. Ao contrário, procurou estabelecer uma relação civilizada, institucional e pragmática com o maior conglomerado de comunicação do País. Compreendeu que governar o Brasil exige diálogo inclusive com aqueles que trabalharam contra seu projeto político e contra sua própria liberdade.

Na sabatina da Globo, Lula cobrou algo elementar: um pedido de desculpas pela forma como foi tratado durante a Lava Jato e, em particular, pelo espetáculo do PowerPoint que ajudou a apresentá-lo aos brasileiros como culpado antes de qualquer julgamento definitivo. Não pediu censura, não pediu submissão e não pediu que a imprensa deixasse de investigar governos. Pediu apenas que uma instituição com enorme poder reconhecesse os próprios erros diante dos fatos revelados pela história.

A resposta chegou neste domingo: “Não há do que se desculpar”.

Pronto. Caíram as máscaras e, com elas, qualquer ilusão de que a Globo estivesse disposta a fazer um acerto de contas sério com sua própria história. O grupo que levou quase meio século para admitir que errou ao apoiar o golpe de 1964 agora se recusa a reconhecer qualquer responsabilidade pelo ambiente político e midiático que ajudou a construir durante a Lava Jato.

A questão, evidentemente, transcende Lula e diz respeito a projetos de Brasil. De um lado, existe historicamente um projeto de construção de uma nação soberana, industrializada, socialmente integrada, capaz de controlar seus recursos estratégicos, reduzir desigualdades e exercer autonomia no sistema internacional. Esse impulso apareceu, com suas diferentes características e contradições, em Getúlio Vargas, João Goulart e, mais recentemente, nos governos Lula e Dilma.

Do outro lado está o projeto de um Brasil subordinado, dependente, socialmente desigual, financeirizado e permanentemente condicionado pelos interesses de suas elites econômicas e pelos centros internacionais de poder. Sempre que esses dois projetos entraram em choque, a Globo soube de que lado ficar. Combateu Getúlio, apoiou o golpe contra João Goulart, prosperou durante a ditadura, apoiou a derrubada de Dilma, transformou a Lava Jato em espetáculo e ajudou a construir o ambiente que levou Lula à prisão e o retirou da eleição de 2018.

A Globo pode até afirmar que não deve desculpas. Os brasileiros têm o direito de olhar para sua história e chegar à conclusão oposta. Deve desculpas pelo apoio ao golpe de 1964, como ela própria finalmente reconheceu em 2013; deve uma autocrítica profunda por seu papel na crise que culminou no golpe parlamentar contra Dilma; deve explicações pela transformação da Lava Jato em espetáculo permanente; e deve refletir sobre sua participação na construção do ambiente que permitiu a prisão de Lula, sua exclusão da eleição e a posterior ascensão do bolsonarismo.

Depois de Getúlio, 1964, junho de 2013, 2016, Lava Jato e 2018, já não há espaço para ilusões. Lula tentou construir uma relação civilizada e pragmática depois de retornar à Presidência. A Globo respondeu neste domingo que “não há do que se desculpar”.

Que assim seja. Cada um escolheu seu lugar na história.

A Globo está onde sempre esteve: contra as forças populares, contra os interesses nacionais e, portanto, contra o Brasil e os brasileiros.