
A aproximação entre as duas potências do agronegócio foi vertiginosa no período recente, considerando que em 2021 a diferença a favor dos norte-americanos era de US$ 56 bilhões.
Os Estados Unidos correm o risco iminente de perder para o Brasil o papel de maior exportador agrícola do mundo, aponta reportagem do jornal britânico Financial Times. Segundo dados do Departamento de Agricultura norte-americano e do Ministério da Agricultura brasileiro citados na publicação, os EUA exportaram US$ 171 bilhões em produtos agrícolas no ano passado. O volume superou o desempenho brasileiro por uma margem de apenas US$ 2 bilhões. A aproximação entre as duas potências do agronegócio foi vertiginosa no período recente, considerando que em 2021 a diferença a favor dos norte-americanos era de US$ 56 bilhões.
Com base em análises de especialistas ouvidos em visitas aos Estados de Iowa, no Meio-Oeste norte-americano, e de Mato Grosso, no Brasil, o periódico britânico indica que o fator central para a mudança no cenário do comércio internacional reside nas “perturbações comerciais desencadeadas pelas tarifas impostas pelo presidente Donald Trump”.
A China, um dos maiores compradores globais de produtos agrícolas, reduziu expressivamente as compras provenientes dos EUA após o republicano impor tarifas ao país asiático em 2018, ainda durante o seu primeiro mandato na Casa Branca.
Com a retaliação de Pequim às barreiras tarifárias impostas por Washington em 2018, o crescimento do Brasil no mercado chinês acelerou de forma marcante. Em 2025, o Brasil exportou mais de 80 milhões de toneladas de soja para a China, enquanto as exportações americanas do grão para o país asiático nem sequer atingiram a casa das dezenas de milhões de toneladas.
A reportagem do Financial Times destaca que, a despeito de os EUA continuarem demonstrando capacidade para produzir “safras extraordinárias”, “as margens de lucro estão desaparecendo à medida que as tensões comerciais e os preços baixos deixam sua marca no Meio-Oeste”.
Representantes do setor já projetam perdas financeiras relevantes. Estimativas da American Farm Bureau Federation, principal organização e grupo de lobby de agricultores e pecuaristas dos EUA, indicam que o setor agrícola norte-americano enfrentará os seguintes prejuízos por acre no próximo ano:
- Soja: prejuízo de US$ 138 por acre;
- Milho: prejuízo de US$ 167 por acre;
- Trigo: prejuízo de US$ 145 por acre;
- Algodão: prejuízo de US$ 406 por acre.
A publicação ressalta que “a força do setor agrícola do Brasil não é apenas consequência da política comercial americana”, consistindo em uma trajetória estrutural desenvolvida ao longo das últimas décadas.
Líder mundial também no comércio de café, cana-de-açúcar e suco de laranja, o Brasil era dependente da importação de alimentos para abastecer sua própria população até a década de 1970. A virada ocorreu quando o país passou a explorar o potencial do seu território, com capacidade para gerar duas e até três safras no mesmo ano em uma mesma área.
Esse avanço foi viabilizado pela disponibilidade e pelo baixo custo da terra, sobretudo nas regiões de fronteira agrícola, associados à expansão do cultivo para áreas anteriormente consideradas inférteis ou de difícil manejo. Esse processo ganhou viabilidade a partir do “tratamento de solos pobres em nutrientes e o desenvolvimento genético de culturas adaptada ao clima”.
“Esse modelo de produção contínua ajuda a diluir os custos fixos e, normalmente, melhora as margens das propriedades rurais”, explicou à reportagem o analista Raphael Bulascoschi, da corretora de commodities StoneX.





