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Casa Branca ataca o Brasil por manter relações comerciais com a China

O relatório descreve a existência de uma “rede clandestina de triangulação” da China e afirma ter classificado os países levando em consideração o tamanho do comércio relacionado ao mercado chinês, o grau de integração econômica e características que poderiam torná-los...

Casa Branca ataca o Brasil por manter relações comerciais com a China

Mais de 40 países aparecem associados a risco elevado de triangulação ilegal, prática conhecida internacionalmente como “transshipment”.

O Brasil foi incluído pelo governo dos Estados Unidos em uma classificação de países considerados de risco elevado para operações de redirecionamento de mercadorias relacionadas à China. O relatório divulgado pela Casa Branca nesta quinta-feira (13) coloca o país no Nível 2 e sustenta que sua estrutura industrial e logística pode ser utilizada em operações destinadas a alterar a rota ou a origem de produtos enviados ao mercado estadunidense.

Citando a agência Bloomberg, o jornal O Globo destaca que o documento foi elaborado pelo Escritório de Política Comercial e Industrial da Casa Branca, ligado ao assessor comercial Peter Navarro. Mais de 40 países aparecem associados a risco elevado de triangulação ilegal, prática conhecida internacionalmente como “transshipment”.

O relatório descreve a existência de uma “rede clandestina de triangulação” da China e afirma ter classificado os países levando em consideração o tamanho do comércio relacionado ao mercado chinês, o grau de integração econômica e características que poderiam torná-los suscetíveis a operações de redirecionamento de mercadorias.

A análise ocorre em meio à ofensiva comercial do governo Donald Trump para dificultar mecanismos usados para contornar as tarifas impostas pelos Estados Unidos. A própria Casa Branca, no entanto, reconhece a complexidade de separar operações fraudulentas de transformações legítimas das cadeias internacionais de produção.

Além do Brasil, Indonésia, Malásia, Tailândia, Turquia e Vietnã integram o Nível 2. Segundo o relatório, essa categoria reúne países com volumes significativos de transbordo e maior integração com cadeias de fornecimento, estruturas industriais, sistemas logísticos ou rotas de redirecionamento vinculadas à China.

Brasil e Turquia recebem uma descrição específica no documento. De acordo com o governo estadunidense, os dois países funcionam como “plataformas regionais maiores de produção e logística, capazes de dar suporte a solicitações de redirecionamento ou transformação em categorias selecionadas de produtos”.

Vietnã, Tailândia, Malásia e Indonésia, por sua vez, são apontados como países estreitamente integrados às redes industriais próximas à China. Essas economias tornaram-se importantes plataformas para a fabricação de eletrônicos, máquinas, plásticos, calçados, roupas, componentes e outros produtos que incorporam insumos chineses.

O relatório também aponta México, Canadá, União Europeia, Índia, Japão e Coreia do Sul entre os maiores facilitadores relacionados ao fluxo de mercadorias chinesas.

Peter Navarro adotou um tom de advertência ao comentar a iniciativa do governo Trump. “Isso é basicamente um aviso ao mundo: não tentem enganar os Estados Unidos”, afirmou o assessor comercial da Casa Branca à Bloomberg Television nesta quinta-feira (13).

O governo estadunidense sustenta que a triangulação permite que produtos chineses continuem chegando ao mercado dos Estados Unidos apesar das barreiras comerciais impostas por Washington.

Segundo o relatório, os países utilizados como intermediários também podem obter benefícios econômicos dessas operações.

“Empresas locais recebem taxas de montagem, receitas de armazenamento, margens de logística, tarifas portuárias, receitas de despachantes aduaneiros, aluguéis de terrenos e investimentos em zonas de processamento de exportações. Os governos se beneficiam de empregos, arrecadação de impostos, investimento estrangeiro e crescimento do comércio” destaca um trecho do documento.

Os valores apresentados no relatório foram calculados com base em análises de duas fontes governamentais e três fontes privadas.

Uma das estimativas é da Exiger, empresa especializada em cadeias de suprimentos e inteligência artificial. Segundo a companhia, aproximadamente US$ 75 bilhões em mercadorias teriam sido ilegalmente trianguladas entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026.

A estimativa, segundo a análise, corresponderia a uma perda de arrecadação tarifária entre US$ 19 bilhões e US$ 34 bilhões para os Estados Unidos.

O relatório afirma que o governo estadunidense está implementando ferramentas destinadas a “detectar, dissuadir e impedir” a evasão tarifária.

Entre as medidas previstas está uma espécie de “detetive digital” para auxiliar a fiscalização das fronteiras. A ferramenta deverá utilizar inteligência artificial para comparar dados das cargas com históricos de rotas comerciais.

O sistema também poderá verificar a capacidade produtiva das empresas e suas relações de propriedade, além de analisar padrões de embalagens e imagens de raio X produzidas nos portos. O objetivo é encontrar divergências entre as mercadorias declaradas e o conteúdo efetivamente transportado nos contêineres.

A iniciativa pretende aumentar a capacidade de fiscalização em uma área particularmente complexa. Investigações comerciais sobre a verdadeira origem de produtos podem levar anos, especialmente quando uma mesma mercadoria contém componentes fabricados em diferentes países.

Embora utilize uma classificação de risco, o próprio relatório reconhece que nem toda mudança nas cadeias de fornecimento envolvendo a China representa uma operação ilegal.

Não está claro, segundo o documento, quanto da reorganização produtiva identificada nos últimos anos corresponde a práticas ilícitas e quanto resulta de mudanças legítimas na produção e no comércio internacional.

“Uma fiscalização eficaz, portanto, exige distinguir a fabricação legítima e a transformação substancial do comércio de mera passagem de mercadorias e da alteração fraudulenta de sua origem”, afirma o relatório.

A ressalva é relevante porque determinar a origem efetiva de um produto pode ser complexo. Mercadorias comercializadas internacionalmente frequentemente incorporam peças, matérias-primas e processos industriais realizados em diversos países.

A reorganização das cadeias produtivas ganhou força durante o primeiro mandato de Donald Trump, quando Washington elevou tarifas sobre exportações chinesas.

Diante das barreiras, empresas passaram a diversificar fornecedores e, quando possível, transferiram parte da produção para fora da China. A estratégia ficou conhecida como “China + 1” e impulsionou investimentos no Vietnã, no Camboja e em outras economias asiáticas, inclusive por empresas de propriedade chinesa.

Após retornar à Casa Branca, Trump iniciou uma nova rodada de tarifas específicas por país. Algumas das taxas mais elevadas atingiram países aliados dos EUA e importantes parceiros comerciais.

O relatório reconhece que diferenças entre as tarifas cobradas de cada país podem aumentar os incentivos à triangulação ilegal. A resposta de Washington é ampliar os instrumentos destinados a rastrear a verdadeira origem das mercadorias.

Com a classificação no Nível 2, o Brasil passa a integrar formalmente o grupo de países que estarão sob maior atenção nessa estratégia comercial estadunidense. O enquadramento apresentado pela Casa Branca está relacionado principalmente ao peso do país como plataforma regional de produção e logística e à sua integração econômica com a China.