A passagem de Flávio Bolsonaro (PL) pela Argentina, após sua derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais, contou com escolta policial fornecida pelo governo de Javier Milei. O ex-candidato cruzou a fronteira brasileira na noite de terça-feira (27), acompanhado da esposa e das duas filhas, e embarcou em uma aeronave particular que aguardava no aeroporto de Puerto Iguazú, na província de Misiones.
Segundo informações divulgadas pelo Diário do Centro do Mundo (DCM), a operação envolveu agentes de segurança argentinos, transporte privado e uma aeronave que estava posicionada no aeroporto desde segunda-feira (26). A Direção Nacional de Migrações da Argentina confirmou oficialmente a entrada e a saída da família Bolsonaro do país, enquanto um integrante da comunicação do governo Milei comemorou publicamente a operação.
A travessia ocorreu às 22h50 de terça-feira, pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que conecta Foz do Iguaçu, no Paraná, a Puerto Iguazú. Flávio Bolsonaro e seus familiares estavam em uma caminhonete branca, acompanhada por uma viatura da polícia argentina.
Cerca de 40 minutos depois, às 23h30, os quatro passageiros embarcaram em um jato Gulfstream operado pela empresa Baires Fly. A aeronave decolou às 0h21 desta quarta-feira (28), com destino a Guayaquil, no Equador.
A possível participação direta do presidente argentino na operação foi apontada pelo empresário mexicano Simón Levy, ex-subsecretário de Planejamento Turístico do governo de Andrés Manuel López Obrador.
Em entrevista à emissora argentina A24, Levy afirmou que Javier Milei tinha conhecimento da movimentação e participou de sua organização.
“O único que sabe disso é o presidente Milei. Ele participou de parte da coordenação de toda essa operação”, declarou o empresário.
A afirmação de Levy, entretanto, não equivale a uma confirmação oficial de que Milei tenha coordenado pessoalmente a saída de Flávio Bolsonaro. A participação direta do presidente argentino permanece baseada no relato do empresário.
A atuação das autoridades argentinas também foi elogiada por Juan Pablo Carreira, conhecido nas redes sociais como Juan Doe, diretor de Comunicação Digital da Presidência argentina.
Às 2h21 desta quarta-feira, Carreira publicou uma mensagem celebrando a saída do ex-candidato brasileiro.
“O governo Milei é o governo com mais coragem da história. Flávio Bolsonaro está a salvo das garras do comunismo, que quer prender todos os opositores; e agora poderá continuar a luta dos Estados Unidos, em vez de uma cela em Brasília, como seu pai”, escreveu, em tradução do espanhol.
A manifestação de Carreira evidencia o apoio político de um integrante do governo argentino à saída de Flávio Bolsonaro, embora não esclareça quais autoridades determinaram o acompanhamento policial da comitiva.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também comentou a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil durante a madrugada desta quarta-feira.
Questionado sobre a concessão de vistos aos integrantes da família, Trump confirmou a autorização e justificou a medida afirmando que “são boas pessoas e as eleições foram terríveis”.
Ao ser perguntado sobre o paradeiro de Flávio, o presidente estadunidense respondeu: “Ouvi dizer que estava na Argentina”.
A autorização dos vistos permitiria que a família prosseguisse viagem aos Estados Unidos.
De acordo com o jornal argentino Página/12, o planejamento do voo previa uma parada em Guayaquil, no Equador, para reabastecimento, antes da continuidade do deslocamento.
A rota escolhida pelo piloto também chamou a atenção. Segundo a publicação argentina, o Gulfstream evitou atravessar o espaço aéreo brasileiro e seguiu por Paraguai, Bolívia e Peru até o destino declarado.
A emissora argentina C5N registrou a chegada da caminhonete utilizada para transportar a família Bolsonaro ao aeroporto de Puerto Iguazú.
O veículo, pertencente à empresa Dallas Travel Turismo LTDA, levou os quatro passageiros até o terminal, onde a aeronave particular já estava preparada para o embarque.
As imagens divulgadas pela emissora também mostraram a decolagem do jato e a movimentação posterior de caminhonetes e veículos da Polícia de Segurança Aeroportuária argentina (PSA).
Os registros foram apresentados antes da confirmação oficial da Direção Nacional de Migrações, que posteriormente reconheceu a passagem dos quatro brasileiros pelo território argentino e o embarque no voo privado operado pela Baires Fly S.A.
O jato utilizado pela família Bolsonaro pertence ao empresário argentino Sergio Daniel Mastropietro, proprietário da Baires Fly.
Segundo o Página/12, Mastropietro foi investigado por suspeitas de envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro relacionado ao desvio de recursos destinados à assistência de pessoas com deficiência na Argentina.
A publicação afirma que a empresa emitiu notas fiscais que somariam centenas de milhões de pesos por voos que não teriam sido realizados.
As investigações também identificaram possíveis conexões comerciais entre Mastropietro e Miguel Ángel Calvete, apontado como operador do esquema, além de Diego Spagnuolo, ex-dirigente da Agência Nacional de Deficiência argentina (Andis).
Outro nome mencionado é o empresário Fred Machado, com quem Mastropietro manteve relações comerciais por meio da sociedade So Vain. O proprietário da Baires Fly também teria participado da aproximação entre Machado e o político argentino José Luis Espert.
As suspeitas envolvendo o proprietário da aeronave são objeto de investigações distintas e, por si só, não demonstram irregularidades no voo utilizado pela família Bolsonaro.
A movimentação em torno da possível saída de Flávio Bolsonaro do Brasil já era acompanhada pela imprensa argentina desde segunda-feira.
Na ocasião, o Página/12 identificou a presença do Gulfstream no aeroporto de Puerto Iguazú e relatou informações sobre a atuação de agentes da Secretaria de Inteligência do Estado argentino (SIDE) nas instalações do terminal.
A aeronave estaria preparada para decolar durante a madrugada de terça-feira, mas os passageiros não compareceram, provocando o adiamento da viagem.
Nas horas seguintes, surgiram relatos sobre possíveis rotas alternativas utilizadas pela família Bolsonaro, incluindo deslocamentos pelo Paraguai e pela Venezuela.
A travessia registrada na noite de terça-feira pela Ponte Internacional Tancredo Neves, contudo, confirmou a utilização do corredor entre Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú, que já vinha sendo acompanhado por veículos de comunicação argentinos.
Saída ocorreu apesar de restrição judicial, diz imprensa argentina
A viagem aconteceu menos de 48 horas depois da derrota de Flávio Bolsonaro para Lula no segundo turno das eleições presidenciais.
Segundo a reportagem argentina citada pelo DCM, o ex-candidato estava submetido a uma determinação judicial que o impedia de deixar o Brasil. Flávio também seria investigado em dois procedimentos relacionados a suspeitas de lavagem de dinheiro.
A existência e o alcance dessa restrição judicial não foram detalhados no material divulgado, e a confirmação argentina de que os passageiros não tinham impedimentos migratórios para entrar no país não esclarece a situação jurídica da saída do território brasileiro.
Até o momento das informações relatadas, a Direção Nacional de Migrações havia confirmado a passagem da família Bolsonaro pela Argentina, enquanto o envolvimento pessoal de Milei na coordenação da operação permanecia atribuído às declarações de Simón Levy.





