
A retirada ocorreu em uma região devastada pelos terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 que atingiram o país em 24 de junho e deixaram milhares de mortos, feridos e desaparecidos.
Gil trabalhava em uma guarita de segurança em Catia La Mar, no estado de La Guaira, quando os tremores atingiram o prédio. A esposa dele, Gusbimar González, disse à AFP que o abalo deslocou a estrutura da guarita e deixou o vigilante preso entre paredes: “Isto é realmente um milagre”.
Centenas de socorristas de diferentes países atuaram por três dias para chegar ao local onde Gil estava preso. Equipes dos Estados Unidos, El Salvador, Costa Rica, Portugal, México, Chile e Venezuela escavaram por duas rotas simultâneas em uma operação que avançou enquanto diminuíam as chances de encontrar sobreviventes.
Durante os trabalhos, as equipes reforçaram alicerces com madeira e ferro para impedir que a estrutura inclinada desabasse. Uma ambulância e uma equipe médica permaneceram mobilizadas para atender Gil assim que os bombeiros conseguissem abrir caminho até a guarita.
Um socorrista disse à AFP que Gil estava “muito bem psicologicamente” e o descreveu como um homem de fé. “Ele diz que se lembra do aniversário da filha, está tranquilo”, afirmou. Outro integrante da operação, que não quis se identificar, relatou a dificuldade do salvamento: “Nunca vi algo tão difícil, não sei se houve antes um resgate tão longo com estas características”.
O Corpo de Bombeiros do Chile publicou um vídeo em que Gil movimenta a cabeça dentro da cabine, usando máscara e com o olho direito avermelhado. O vigilante recebeu hidratação por meio de uma sonda, e as equipes instalaram um tubo para levar ar até o ponto onde ele estava preso. Cristian Vera, chefe da equipe chilena, afirmou à AFP que se tratava de “uma estrutura de acesso bastante complicada”.
A tentativa de resgate ocorreu quando a esperança de localizar sobreviventes já havia praticamente acabado. A presidente interina Delcy Rodríguez decretou sete dias de luto nacional pelas vítimas, e dezenas de edifícios em ruínas foram marcados com a letra D, de “deceased” — morto, em português —, sinal usado por equipes de busca para indicar locais já inspecionados.
O balanço oficial mais recente registra ao menos 2.295 mortos, enquanto a ONU estima quase 50 mil desaparecidos. O governo afirma que cerca de 30 mil pessoas estavam em La Guaira no dia dos terremotos, das quais 6.461 foram resgatadas e mais de 13 mil deixaram a região por conta própria ou com ajuda de familiares e amigos.
A crise humanitária também se agravou entre os desabrigados. O Acnur alertou para falta de alimentos, e o governo contabiliza quase 13 mil pessoas sem moradia, enquanto a ONU estima número muito maior. O Programa Mundial de Alimentos pediu US$ 50 milhões para assistir cerca de 500 mil pessoas por três meses, e a Organização Mundial da Saúde apontou risco de doenças virais ou infecciosas diante da pressão sobre os serviços de saúde.





