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PF aponta 74 ligações entre Jaques Wagner e ex-sócio do Banco Master

Além do expressivo volume de ligações, os relatórios da investigação apontam que o parlamentar baiano recebeu presentes de elevado valor, utilizou aeronaves privadas geridas pelo grupo e articulou um encontro marcado pela discrição em seu gabinete parlamentar entre executivos da...

PF aponta 74 ligações entre Jaques Wagner e ex-sócio do Banco Master

Os diálogos analisados indicam ainda que o líder do governo integraria uma ala da gestão federal favorável à venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB), assunto que permeou recorrentemente as comunicações entre as partes.

Documentos elaborados pela Polícia Federal revelam que o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o empresário Augusto Ferreira Lima, executivo e ex-sócio do Banco Master, mantiveram um fluxo intenso de comunicação, registrando ao menos 74 chamadas telefônicas ao longo de um ano e meio. Os contatos ocorreram entre 17 de novembro de 2023 e 25 de maio de 2025, acumulando um total de cinco horas e trinta minutos de duração, informa a Folha de São Paulo.

Além do expressivo volume de ligações, os relatórios da investigação apontam que o parlamentar baiano recebeu presentes de elevado valor, utilizou aeronaves privadas geridas pelo grupo e articulou um encontro marcado pela discrição em seu gabinete parlamentar entre executivos da instituição financeira e o ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias.

A análise técnica dos investigadores ressalta que havia uma nítida preferência pelo uso de chamadas de voz efetuadas via aplicativo WhatsApp em detrimento do envio de mensagens de texto escritas. De acordo com o documento policial, esse padrão de comunicação sugere uma tentativa deliberada de evitar registros textuais sobre os temas sensíveis discutidos entre o senador e o empresário.

A Polícia Federal conseguiu cruzar a duração das chamadas telefônicas com eventos decisivos e datas de interesse direto do Banco Master no Congresso Nacional e no Poder Executivo. Em 13 de agosto de 2024, dia em que foi incluída uma emenda referente à cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), Augusto Lima realizou uma ligação de 9 minutos e 19 segundos para Jaques Wagner. Imediatamente após o encerramento do diálogo, o executivo encaminhou o link direto da referida emenda para o telefone do parlamentar.

O relatório policial pondera que as chamadas não se restringiam estritamente a tratativas profissionais, descrevendo uma relação próxima e marcada por “manifestações de afeto e proximidade pessoal e familiar”. Contudo, a PF apura se essa intimidade resultou na concessão deliberada de vantagens indevidas ao agente público.

Segundo os dados levantados, existem ao menos quatro ocasiões documentadas em que o senador baiano viajou em aviões ou helicópteros vinculados ao empresário. A apuração revela também o custeio de ingressos para um show da cantora americana Taylor Swift — no qual um dos lotes de entradas, avaliado em R$ 63 mil, foi destinado à filha e à neta do senador.

Outro desdobramento envolve negociações para a aquisição de um apartamento de luxo avaliado em R$ 2,45 milhões no condomínio Poème Horto, localizado no bairro nobre do Horto Florestal, em Salvador. A Polícia Federal destaca que as conversas para a transação imobiliária continuaram ativas mesmo após a deflagração da primeira fase da Operação Compliance Zero, em 18 de novembro de 2025.

O relatório atribui ainda ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro a coordenação logística dos deslocamentos do senador em jatinhos privados, com orientações explícitas para diminuir a visibilidade do transporte. Em mensagens registradas no dia 11 de setembro de 2024, Vorcaro orientou que o voo ocorresse de forma ultra-reservada, emitindo ordens como: “Algum [hangar] que ninguém conheça”, “E tira o avião rápido de lá” e “nem apaga o motor”. O objetivo das instruções era diminuir a exposição da aeronave e evitar a identificação dos passageiros, grupo que incluía Jaques Wagner e seu assessor Lucas Reis.

A investigação documenta também a realização de reuniões presenciais no gabinete do senador com esquemas para burlar a portaria do Senado. Em um áudio gravado em 29 de abril de 2024, Jaques Wagner afirma ter conversado com o advogado-geral da União, Jorge Messias, para adequar os horários de uma agenda comum. Na gravação, o senador sugere que a reunião ocorra em seu próprio gabinete por ser o local “mais protegido e discreto para todo mundo”, orientando o empresário: “eu posso ir lá embaixo, chegar mais ou menos junto com você… e você não precisa nem passar pela identificação”.

O relatório assinala que, no dia seguinte ao encontro, o sistema do WhatsApp registrou que Jorge Messias adicionou o número de Augusto Lima e ativou o modo de mensagens temporárias para apagamento automático em sete dias.

Procurados pela Folha de São Paulo por meio de suas assessorias de imprensa via WhatsApp, o senador Jaques Wagner e os demais políticos citados não retornaram os contatos. Em entrevista concedida em junho, o senador Jaques Wagner havia classificado as apurações da Polícia Federal como uma “patacoada”, negando irregularidades e afirmando desconhecer repasses para empresas de sua nora. Na oportunidade, o parlamentar declarou que a investigação tenta criminalizar relações pessoais e rebateu: “O que a Polícia Federal tem que comprovar, e não vai, é a relação de troca. Eles inventaram que trabalhei pelo Banco Master. E eu nunca trabalhei a favor, trabalhei contra”.