
Entre os incidentes graves relatados, passageiros registraram em vídeo, no dia 23 de julho, um vagão pegando fogo na Linha 12-Safira, nas proximidades da estação Tatuapé, além de episódios em que usuários precisaram caminhar pelos trilhos devido a interrupções causadas por possíveis curtos-circuitos.
A greve dos trabalhadores da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) entrou em seu segundo dia, mantendo paralisadas as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade e provocando severos transtornos no deslocamento diário de cerca de 1 milhão de passageiros na Região Metropolitana de São Paulo. A mobilização, mantida após decisão tomada pela categoria em assembleia, ultrapassa o campo trabalhista e coloca no centro do debate político as concessões públicas promovidas pela gestão estadual, acirrando o embate entre o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e a oposição às vésperas do período eleitoral, relata o jornal O Globo.
Em resposta ao movimento grevista, o governo estadual acionou a CPTM para entrar na Justiça com o objetivo de determinar um percentual mínimo de efetivo em serviço. Nas redes sociais, Tarcísio de Freitas reagiu de forma dura, atribuiu a paralisação a interesses partidários e atacou os grevistas. “A greve de hoje é resultado unicamente de instrumentalização política para prejudicar o passageiro e o cidadão de bem, que já não suportam mais ver justamente aqueles políticos que dizem defender os seus interesses atuando para ferir seu direito de ir e vir. A aposta na baderna e na paralisia dos serviços não vai intimidar o governo, que esteve e seguirá aberto ao diálogo”, afirmou o governador.
A entidade sindical responsável pela convocação rebateu prontamente as acusações do Palácio dos Bandeirantes. Em nota oficial, o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias da Zona Central do Brasil, filiado à Central Única dos Trabalhadores (CUT), negou qualquer motivação ideológica ou eleitoral. “A greve dos ferroviários da CPTM não tem motivação político-partidária. O movimento foi aprovado democraticamente em assembleia e nasceu da ausência de uma garantia concreta de manutenção dos empregos de milhares de trabalhadores”, destacou a entidade.
Para tentar mitigar os impactos, a Prefeitura de São Paulo suspendeu o rodízio municipal de veículos, enquanto o governo do estado aplicou um plano de contingência. A estratégia incluiu a antecipação da abertura dos portões do Metrô em 40 minutos, o reforço na frota de trens das demais linhas operantes e o acionamento do Plano de Apoio entre Empresas em Situação de Emergência (Paese), com a oferta de ônibus gratuitos nos trajetos afetados.
Apesar das medidas, a rotina de milhares de trabalhadores foi marcada por desinformação e longas jornadas a pé. Na estação Engenheiro Goulart, por volta das 6h30, passageiros vindos de linhas de ônibus municipais encontravam opções de transporte apenas no sentido Centro. Relatos colhidos no local expõem a gravidade da situação, como o do pedreiro Oziel Baltazar da Silva, de 58 anos. “Saí de casa, em Francisco Morato, às 3h, e até agora não consegui chegar a Ermelino Matarazzo”, relatou o trabalhador, que precisou caminhar cerca de 3 quilômetros ao lado de um colega para chegar ao local de trabalho antes que os ônibus do plano Paese passassem pelo ponto.
A desorganização também foi criticada por agentes de trânsito locais. “A gente não sabe quantos virão e nem se haverá ônibus extras. Como são veículos de linhas intermunicipais, nós, da SPTrans, não ficamos a par de nada. Uma bagunça”, afirmou um fiscal da empresa municipal de transportes que atuava na orientação dos passageiros nas estações.
O colapso temporário nas linhas geridas pela Trivia e a subsequente paralisação da CPTM transformaram a pauta dos transportes e das privatizações em um dos principais combustíveis da disputa pelo governo de São Paulo. A campanha de Fernando Haddad (PT), principal adversário de Tarcísio de Freitas na corrida estadual, intensificou as críticas ao modelo de gestão privada adotado pela atual administração. Antes mesmo do anúncio da greve, o candidato petista divulgou nas redes sociais vídeos expondo as imagens de fumaça e do vagão destruído pelo incêndio na Linha 12-Safira. A estratégia da oposição prevê ainda explorar os episódios no horário de propaganda eleitoral, estendendo as críticas ao processo de desestatização da Sabesp.
Pressionado pelos episódios recentes e pela repercussão negativa dos acidentes, Tarcísio de Freitas sinalizou uma mudança de postura em relação às concessões do setor. Em declaração feita no dia 30 de julho, o governador afirmou que não pretende conceder novas linhas do metrô à iniciativa privada e sinalizou a intenção de ampliar a presença do Estado na gestão do sistema sobre trilhos.
Entre as medidas em negociação, o governo estadual busca articular para que a operação do monotrilho da Linha 17-Ouro seja assumida diretamente pelo poder público, em vez de ser repassada à concessionária ViaMobilidade. Justificando a alteração de diretriz, Tarcísio argumentou que o estado “não pode correr o risco de ter muitas linhas operadas por poucos operadores privados” e admitiu publicamente que “mudou de opinião” sobre o tema em relação ao posicionamento que mantinha em 2024.





