×

“O ataque da Globo ao governo Lula era totalmente previsível”, diz Alysson Mascaro

Segundo Mascaro, houve o rompimento de um “pacto de estabilidade” que vigorava desde as eleições de 2022 entre setores do poder econômico e político em torno do presidente Lula. No entanto, ele ressalta que essa ruptura partiu exclusivamente da emissora.

“O ataque da Globo ao governo Lula era totalmente previsível", diz Alysson Mascaro

“Isto foi rompido unilateralmente. Não foi da parte do governo, não foi da parte do presidente Lula, mas foi da parte da Rede Globo”, afirmou.

O jurista e filósofo Alysson Mascaro afirmou que a recente ofensiva da Rede Globo, com um novo PowerPoint que associa o escândalo do Banco Master à esquerda e ao governo Lula, não representa surpresa, mas sim a repetição de um padrão histórico já conhecido. Em entrevista à TV 247, Mascaro analisou o episódio envolvendo reportagens da emissora que associaram o governo a supostas irregularidades ligadas ao Banco Master.

Segundo Mascaro, houve o rompimento de um “pacto de estabilidade” que vigorava desde as eleições de 2022 entre setores do poder econômico e político em torno do presidente Lula. No entanto, ele ressalta que essa ruptura partiu exclusivamente da emissora. “Isto foi rompido unilateralmente. Não foi da parte do governo, não foi da parte do presidente Lula, mas foi da parte da Rede Globo”, afirmou.

Para o professor, mais do que um rompimento conjuntural, o movimento da Globo expressa sua própria natureza histórica. “Não é um pacto apenas rompido, é uma inclinação natural de um meio de comunicação de massa que centraliza a ideologia no Brasil”, disse Mascaro, acrescentando que a emissora atua há décadas alinhada a interesses econômicos e ao imperialismo.

Mascaro situou o episódio dentro de uma longa trajetória da emissora, que, segundo ele, sempre se posicionou contra projetos populares no país. “Isso não é uma novidade. Isto foi a Globo apoiando a ditadura militar, antes disso indo contra o segundo governo Vargas, depois contra Brizola, contra as Diretas Já e contra Lula desde 1989”, afirmou.

Ao analisar a reação do governo e da esquerda, Mascaro foi crítico à ausência de mudanças estruturais na comunicação ao longo dos governos do PT. Ele evitou fazer um julgamento moral, mas destacou que o problema é recorrente. “É como aquela canção mexicana que diz ‘tropecei de novo na mesma pedra’. É mais uma vez o tropeço na mesma estrutura de sempre”, disse Mascaro.

Segundo o professor, os governos petistas optaram por uma estratégia de estabilização de interesses, sem enfrentar os grandes meios de comunicação. “O governo não rompe com esses meios de comunicação, faz o que dá. E, na hora de uma eleição, esses meios se voltam contra essa réstia de autonomia”, afirmou.

Ele também criticou a ausência de disputa ideológica mais profunda. “O governo não mobilizou a sociedade nem no conteúdo e não alterou a forma da comunicação. Manteve os aparelhos como eram e não disputou o povo que foi levado à extrema direita”, disse.

Ele recorreu à psicanálise para explicar esse comportamento político. “Um dos piores problemas é a repetição. Nós repetimos sempre o que somos. E aqui há uma repetição de não enfrentar a questão da ideologia”, disse.

Mascaro também criticou a inversão de questionamentos feita por setores políticos diante dos ataques da mídia. “A pergunta não é por que a Globo não aprende. A pergunta é por que a esquerda liberal do Brasil não aprende como a Globo é e sempre foi”, afirmou.

Sobre o curto prazo até as eleições, o jurista avaliou que há poucas possibilidades de mudança estrutural na comunicação. Segundo ele, não há tempo para alterar os meios – como concessões de TV ou algoritmos das redes sociais – restando apenas a disputa de conteúdo.

Ele destacou que mudanças ideológicas exigem atuação simultânea na forma e no conteúdo. “Ideologia é forma e conteúdo. Mudar só um deles é quase sem efeito”, explicou.

Ao ser questionado sobre a possibilidade de democratização da mídia em um eventual novo governo, Mascaro demonstrou ceticismo. Para ele, a tendência é de repetição do mesmo padrão político. “Por que no sexto governo, depois de três de Lula e dois de Dilma, seria diferente? Provavelmente será a repetição deste mesmo padrão”, afirmou.

Segundo o professor, a valorização de meios de comunicação alternativos ocorre apenas em momentos de crise eleitoral. “Só nesses momentos se percebe que qualquer postura fora do neoliberalismo só tem nas mãos os meios de comunicação de esquerda”, disse, citando o papel da mídia independente.

Por fim, Mascaro indicou que o problema não se restringe ao Executivo, mas envolve também o Judiciário e outras estruturas de poder, que, segundo ele, igualmente não compreenderam a dinâmica profunda das forças políticas no país. A entrevista foi conduzida pelo jornalista Leonardo Attuch e integra a programação da TV 247.