
As conversas indicam que Motta pediu o empréstimo diretamente a Vorcaro. O diálogo teria ocorrido em março de 2024, antes de o deputado assumir a presidência da Câmara.
A Polícia Federal (PF) encontrou diálogos no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro em que o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), trata da liberação de um empréstimo do Banco Master para uma empresa de Bianca Medeiros, cunhada do parlamentar. De acordo com o jornal O Estado de São Paulo, o financiamento teria sido de ao menos R$ 22 milhões e foi destinado à empresa de Bianca, irmã de Luana Motta, esposa do congressista.
As conversas indicam que Motta pediu o empréstimo diretamente a Vorcaro. O diálogo teria ocorrido em março de 2024, antes de o deputado assumir a presidência da Câmara.
Investigadores apuram o caso no âmbito de apurações relacionadas à Operação Compliance Zero, que investiga elementos ligados à atuação de Vorcaro e possíveis conexões políticas.
“Quando você precisa de um empréstimo, você procura quem? O banco, não é? E a minha cunhada, que representa os negócios do meu sogro, procurou um banco. O banco tava legal à época? Podia operar? Ela tinha um crédito para poder fazer? Então foi uma operação legal. Não tem ilegalidade de nada”, afirmou.
Ao ser questionado se interveio de alguma forma, Motta respondeu: “não tem ilegalidade de nada nisso”. Em seguida, diante de nova pergunta sobre eventual intervenção, declarou: “não, não tem ilegalidade”.
A reportagem também perguntou se ele confirmava ter pedido a Vorcaro, por WhatsApp, a liberação do empréstimo para a empresa de sua cunhada. Motta respondeu que “o empréstimo é legal. O empréstimo é legal feita por uma empresa que tem lastro. E ele tinha uma instituição que estava funcionando dentro das regras. Está dentro da legalidade”.
Em outro momento da entrevista, ao ser novamente questionado se pediu ao banqueiro que liberasse o crédito, o presidente da Câmara afirmou que “empréstimo tem critério para ser liberado, e a instituição dele estava legal. Você não vai conseguir arrancar de mim uma declaração que eu pedi, que eu não pedi. Se você tem a apuração, você publica a apuração. Eu não vou confirmar a informação. Eu não tenho obrigação de confirmar isso”.
Após essa resposta, Motta deixou a sala para conversar com a deputada Renata Abreu (Podemos-SP). Ao retornar, retomou o assunto e acrescentou: “e só para registrar, o empréstimo está sendo pago pela empresa”.
Bianca Medeiros não se manifestou. A investigação ainda analisa se as conversas e demais elementos obtidos pela PF indicam irregularidades ou se os fatos permanecerão apenas como registros de interesse no âmbito da apuração sobre a relação entre o presidente da Câmara e Daniel Vorcaro.
A PF produziu relatórios internos sobre a relação entre Hugo Motta e Daniel Vorcaro. O material está sob análise da equipe responsável pela Operação Compliance Zero. Os investigadores avaliam se há indícios de crime e se será necessário aprofundar a apuração envolvendo o presidente da Câmara.
A apuração também identificou outras menções a Motta no celular do banqueiro. Entre elas, está o pagamento de despesas de uma viagem do parlamentar a Lisboa, em 2024. Segundo documentos e conversas obtidos pela PF, Vorcaro determinou o pagamento de cinco diárias em uma “suíte jr.” no Four Seasons Hotel para Motta e para o presidente do Progressistas, senador Ciro Nogueira (PP-PI).
De acordo com a PF, o custo total para cada um seria de cerca de R$ 90 mil, considerando a cotação do euro à época. Motta disse à reportagem que viajou de “carona” no voo de Vorcaro, a convite de Ciro Nogueira.
Ainda segundo a investigação, o banqueiro cobrou de um funcionário que garantisse privacidade total na organização de um jantar em Lisboa, com a presença de Ciro Nogueira e Motta. Na ocasião, o parlamentar exercia apenas o mandato de deputado federal.
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro está preso no Distrito Federal e tenta uma delação premiada, que já foi rejeitada duas vezes pela PF. Ele foi alvo da Operação Compliance Zero, que investiga um esquema de fraudes financeiras que, segundo a corporação, movimentou ao menos R$ 12 bilhões.
Ao rejeitar as delações do controlador do Master, a PF apontou “seletividade” dos fatos na primeira decisão. Ao rejeitar a segunda proposta, a corporação afirmou que não houve acréscimo de elementos relevantes à investigação em andamento.





