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Morre Márcio Chaer, um dos maiores jornalistas brasileiros

Aos 71 anos, Chaer sofreu um infarto fulminante nesta tarde, depois de perseguir bandidos que haviam furtado o celular de um amigo. Mais do que fundador de um veículo de comunicação, Chaer foi um construtor de pontes entre dois universos...

Morre Márcio Chaer, um dos maiores jornalistas brasileiros

“Marcio Chaer foi um dos grandes arquitetos do Direito brasileiro na era moderna”, afirmou o jurista Arnoldo Wald Filho.

O jornalismo brasileiro perdeu neste sábado (3) um de seus grandes nomes. Morreu em São Paulo o jornalista Márcio Chaer, fundador e diretor do Consultor Jurídico (ConJur), publicação que transformou a cobertura do mundo do Direito no Brasil e se tornou referência obrigatória para jornalistas, advogados, magistrados, integrantes do Ministério Público e estudiosos das instituições brasileiras.

“Um pouco de nós todos vai com ele. Muito triste. O mundo jurídico está de luto”, disse o ministro Luis Felipe Salomão, presidente do Superior Tribunal de Justiça. “Personagem destacada no mundo jurídico e atento e reverente com os advogados, cuja importância destacou sempre, sensível ao indeclinavel direito de defesa. Deixa saudade e relevante legado”, destacou o criminalista Nélio Machado.

Aos 71 anos, Chaer sofreu um infarto fulminante nesta tarde, depois de perseguir bandidos que haviam furtado o celular de um amigo. Mais do que fundador de um veículo de comunicação, Chaer foi um construtor de pontes entre dois universos que ajudou a aproximar como poucos: o jornalismo e o Direito.
Ao longo de décadas, formou jornalistas, reuniu alguns dos mais importantes juristas brasileiros em torno do ConJur e criou um espaço permanente para o debate sobre Justiça, democracia, garantias individuais e Estado de Direito. Recebi com profunda tristeza a notícia da partida de Marcio Chaer.
O jornalismo brasileiro perde um profissional de enorme fibra e coragem, que ajudou a transformar a cobertura do mundo jurídico com a criação do ConJur.
“Eu perco um amigo querido, de caráter firme, franqueza rara e lealdade inabalável. Guardarei com muito carinho nossas conversas e tantos momentos de amizade. À sua família, aos amigos e a toda a equipe do ConJur, meu abraço e minhas mais sentidas condolências”, afirmou Bruno Dantas, ex-presidente do Tribunal de Contas da União.

Fundado em 1997, o Consultor Jurídico tornou-se uma das mais importantes publicações especializadas do País. Seu trabalho diário de acompanhamento de decisões judiciais, tendências jurisprudenciais, atividades legislativas e debates jurídicos produziu um acervo de mais de 175 mil textos de acesso gratuito. A publicação tornou-se também fonte frequente para outros grandes veículos de comunicação. “Marcio Chaer foi um dos grandes arquitetos do Direito brasileiro na era moderna”, afirmou o jurista Arnoldo Wald Filho.

A dimensão da obra construída por Chaer pode ser medida pela influência alcançada pelo ConJur dentro do próprio Judiciário. O veículo tornou-se o mais citado na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, com centenas de referências em acórdãos e decisões monocráticas.

Ao longo dos anos, o ConJur também assumiu posições contramajoritárias em alguns dos momentos mais tensos da vida institucional brasileira. Durante a Lava Jato, quando grande parte da imprensa tratava a operação de forma favorável, a publicação abriu espaço para questionamentos sobre abusos, violações de garantias e procedimentos adotados por investigadores e pelo então juiz Sergio Moro. O mesmo espírito crítico marcou a cobertura do Mensalão, da Operação Satiagraha e das chamadas Dez Medidas Contra a Corrupção.

A morte de Márcio Chaer provocou manifestações de pesar no mundo jurídico.

O ministro-chefe da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, afirmou ter recebido a notícia com profundo pesar. “Jornalista dedicado e importante difusor da cultura jurídica nacional, deixa uma contribuição inestimável e uma marca especial em todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo e acompanhar seu trabalho. Neste momento de dor, manifesto minha solidariedade aos familiares, e demais amigos, desejando-lhes força e serenidade”, declarou Messias.

O jurista Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do Grupo Prerrogativas, também prestou homenagem a Chaer. “Um dos maiores jornalistas brasileiros e um grande defensor do Estado de Direito e das garantias individuais, além de difusor da cultura jurídica por meio do ConJur”, afirmou. “Marcio foi um querido amigo, defensor da advocacia e do Estado de Direito. Teve papel central no enfrentamento da farsa da Lava Jato e por suas virtudes será lembrado, diferentemente de parcela da mídia brasileira, que vive da calúnia e da violação das garantias individuais”, declarou Rafael Valim, um dos grandes advogados do Brasil.

“Marcio Chaer foi a cara da coragem e da ética, que é o avesso do massacre de reputações e do moralismo calculado e ambicioso. O país perdeu um grande profissional e um maravilhoso ser humano”, acrescentou o advogado Walfrido Warde. “ Uma tragédia, uma tristeza, partiu um grande jornalista, uma figura muito importante, um grande amigo, sem palavras para descrever esse sentimento”, pontuou o advogado Pierpaolo Bottini.

A relação de Chaer com o universo jurídico ultrapassava a dimensão profissional. Durante décadas de atuação, construiu amizades profundas entre advogados, ministros, magistrados, professores, procuradores e jornalistas.

“A morte de Chaer deixa uma lacuna no jornalismo jurídico brasileiro. Mas deixa também uma obra que seguirá sendo consultada todos os dias e uma geração de jornalistas que aprendeu com o caminho que ele ajudou a abrir”, afirmou Miguel Matos, fundador do Migalhas, um dos principais portais jurídicos do País.

A obra de Chaer, porém, permanecerá muito além das relações pessoais que construiu.

O ConJur criou ainda, a partir de 2007, a coleção Anuário da Justiça, destinada a registrar perfis, decisões e tendências dos ministros, desembargadores e juízes dos principais tribunais brasileiros. A coleção ultrapassou 70 edições e tornou-se fonte de consulta para advogados, promotores, magistrados e jornalistas.

Chaer criou uma comunidade. Ao redor do ConJur, aproximou gerações de jornalistas e juristas. Cultivou fontes que se transformaram em amigos, amigos que se tornaram colaboradores e colaboradores que ajudaram a construir uma publicação cuja influência passou muito além de sua redação.

Por isso, sua morte não representa apenas a perda do fundador de um importante veículo de comunicação. Representa a despedida de um jornalista que ajudou a mudar a maneira como o Brasil acompanha, compreende e debate sua Justiça.

Márcio Chaer deixa uma obra jornalística de enorme relevância, uma instituição consolidada e centenas de amigos espalhados pelas redações, escritórios de advocacia, universidades e tribunais do País.

Deixa, sobretudo, uma marca rara: a de quem fez do jornalismo não apenas uma profissão, mas uma forma permanente de defender o direito à informação, o contraditório, as garantias individuais e o Estado de Direito.

O jornalismo brasileiro e o Direito estão de luto.