
A deterioração das condições econômicas das famílias argentinas contrasta cada vez mais com os indicadores macroeconômicos celebrados pelo governo do presidente Javier Milei.
A deterioração das condições econômicas das famílias argentinas contrasta cada vez mais com os indicadores macroeconômicos celebrados pelo governo do presidente Javier Milei. Cerca de 60% da população enfrenta dificuldades econômicas, milhões de pessoas estão inadimplentes e uma parcela expressiva das famílias já recorre ao crédito para comprar alimentos e conseguir pagar as despesas básicas do mês.
Pesquisas citadas pela jornalista indicam que cerca de 60% da população argentina atravessa dificuldades econômicas.
Além da situação presente, as expectativas também são negativas. A maioria dos argentinos avalia que a economia está piorando e demonstra pessimismo em relação ao que poderá acontecer no próximo ano.
A questão levantada por Fesquet é justamente a distância entre esses números e aquilo que ocorre na vida cotidiana das famílias.
Enquanto o governo destaca resultados agregados da economia, outros indicadores revelam aumento da inadimplência, dificuldades para pagar empréstimos, necessidade de refinanciamento e endividamento para cobrir necessidades básicas.
Os números relacionados ao crédito oferecem uma dimensão concreta da crise.
A inadimplência total se multiplicou por cinco desde o fim de 2024.
Outro indicador preocupante é o crescimento das renegociações. A quantidade de empréstimos refinanciados dobrou em apenas seis meses, alcançando níveis históricos.
Atualmente, 26,1% dos devedores apresentam algum tipo de atraso. O percentual aumentou 8,8 pontos percentuais em apenas um ano.
Um dos dados mais contundentes apresentados na análise diz respeito à finalidade do endividamento.
Segundo levantamento citado por Fesquet, 33,4% das famílias endividadas recorreram a empréstimos para comprar alimentos ou pagar as despesas correntes do mês.
O crédito, portanto, deixou de funcionar apenas como instrumento para financiar bens de maior valor ou despesas extraordinárias. Para uma parcela significativa da população argentina, passou a ser necessário para garantir o consumo básico.
Quando o dinheiro recebido mensalmente já não é suficiente para cobrir alimentação e outras despesas essenciais, o empréstimo passa a funcionar como complemento de renda. A consequência é a formação de um ciclo no qual novas dívidas são utilizadas para financiar despesas imediatas enquanto parcelas anteriores continuam comprometendo os rendimentos futuros.
O aumento das renegociações demonstra que esse processo já chegou a um ponto crítico para milhões de pessoas.
Os números de Milei
O governo Milei apresenta determinados resultados macroeconômicos como evidência de que sua política está colocando a Argentina no caminho da recuperação.
Setores como energia e mineração aparecem entre os exemplos utilizados para sustentar essa narrativa.
A análise de Fesquet chama atenção, porém, para aquilo que esses indicadores não mostram.
O crescimento da inadimplência, o aumento do refinanciamento e o endividamento para comprar alimentos revelam uma realidade social que não necessariamente acompanha os resultados apresentados pelo governo.
É justamente nesse ponto que a metáfora do rei nu ganha força.
O título escolhido pela editora do Clarín — “A quem interessa fingir que o rei está vestido” — questiona a conveniência política de sustentar uma narrativa de melhora enquanto indicadores diretamente relacionados à vida das famílias apontam para dificuldades crescentes.
A resposta do presidente argentino ao problema do endividamento acrescentou outro elemento à controvérsia.
Milei afirmou que as pessoas que contraem dívidas são responsáveis por suas próprias decisões e tratou a relação entre credores e devedores como um acordo entre particulares.
A posição desloca a questão para o campo da responsabilidade individual.
Os dados sociais, porém, mostram que uma parcela relevante desses empréstimos não está sendo utilizada para consumo supérfluo.
Quando 33,4% das famílias endividadas precisam recorrer ao crédito para comprar comida ou pagar as despesas do mês, a expansão das dívidas também passa a refletir problemas relacionados à renda, ao emprego, ao poder de compra e ao custo de vida.
A inadimplência crescente torna ainda mais evidente a dificuldade para sustentar esse modelo.
Arcebispo alerta para dívida
As consequências sociais da situação econômica também provocaram críticas de setores da Igreja Católica.
O arcebispo de Buenos Aires, Jorge García Cuerva, criticou dirigentes que discutem pobreza sem estar próximos das necessidades concretas daqueles que enfrentam dificuldades.
O religioso também advertiu sobre os riscos do crédito utilizado como solução para a falta de dinheiro.
A preocupação é com a transformação dos empréstimos em uma armadilha capaz de endividar e asfixiar economicamente as famílias.
A advertência ganha peso diante dos números apresentados sobre inadimplência e renegociação de dívidas.
Milhões de argentinos estão atrasados nos pagamentos e um contingente crescente precisa renegociar compromissos assumidos anteriormente.
Empresas fecham
Os problemas econômicos também aparecem no setor produtivo.
O cenário analisado por Fesquet inclui fechamento de empresas e conflitos trabalhistas, fatores que aumentam a insegurança em relação ao emprego e à renda.
Ao mesmo tempo, o governo enfrenta dificuldades políticas e retrocessos em projetos legislativos, adicionando problemas de gestão e comunicação ao desafio econômico.
A combinação desses fatores aumenta a distância entre a mensagem otimista transmitida pelo governo e a percepção de parte expressiva da sociedade.
Para quem depende do salário para pagar alimentação, serviços, aluguel e prestações, a recuperação econômica só se torna concreta quando produz efeitos perceptíveis sobre renda, emprego e poder de compra.
O rei está nu
A ironia utilizada por Silvia Fesquet sintetiza essa contradição.
Na conhecida história, todos enxergam que o rei está nu, mas continuam fingindo que ele veste roupas magníficas. O constrangimento coletivo só termina quando aquilo que estava evidente é finalmente dito.
No caso argentino, os números citados pela editora do Clarín dão materialidade à metáfora.
São 20,9 milhões de pessoas com créditos vigentes. Entre elas, 5,8 milhões acumulam atrasos superiores a 90 dias. A inadimplência se multiplicou por cinco desde o fim de 2024. A proporção de devedores em atraso chegou a 26,1%, enquanto a quantidade de empréstimos renegociados dobrou em seis meses.
Mais significativo ainda é o fato de que 33,4% das famílias endividadas recorreram ao crédito para comprar alimentos ou simplesmente conseguir pagar as despesas mensais.
É diante desse cenário que Fesquet questiona “a quem interessa fingir que o rei está vestido”.
A pergunta coloca no centro do debate argentino a distância entre a recuperação apresentada pelo governo Milei por meio de indicadores macroeconômicos e uma realidade social marcada por endividamento, inadimplência e dificuldades para financiar até mesmo as necessidades básicas.





