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Editora do Clarín detalha crise econômica na Argentina gerada por Milei e diz que o rei está nu

Cerca de 60% da população enfrenta dificuldades econômicas, milhões de pessoas estão inadimplentes e uma parcela expressiva das famílias já recorre ao crédito para comprar alimentos e conseguir pagar as despesas básicas do mês.

Editora do Clarín detalha crise econômica na Argentina gerada por Milei e diz que o rei está nu

A deterioração das condições econômicas das famílias argentinas contrasta cada vez mais com os indicadores macroeconômicos celebrados pelo governo do presidente Javier Milei.

A deterioração das condições econômicas das famílias argentinas contrasta cada vez mais com os indicadores macroeconômicos celebrados pelo governo do presidente Javier Milei. Cerca de 60% da população enfrenta dificuldades econômicas, milhões de pessoas estão inadimplentes e uma parcela expressiva das famílias já recorre ao crédito para comprar alimentos e conseguir pagar as despesas básicas do mês.

O diagnóstico é apresentado pela jornalista Silvia Fesquet, editora do Clarín, no artigo A quem interessa fingir que o rei está vestido”, em uma referência irônica à conhecida fábula do rei que desfila nu enquanto aqueles ao seu redor fingem enxergar roupas inexistentes. Fesquet contrapõe a narrativa econômica do governo Milei aos números que revelam o agravamento da situação financeira das famílias argentinas.

Pesquisas citadas pela jornalista indicam que cerca de 60% da população argentina atravessa dificuldades econômicas.

Além da situação presente, as expectativas também são negativas. A maioria dos argentinos avalia que a economia está piorando e demonstra pessimismo em relação ao que poderá acontecer no próximo ano.

A questão levantada por Fesquet é justamente a distância entre esses números e aquilo que ocorre na vida cotidiana das famílias.

Enquanto o governo destaca resultados agregados da economia, outros indicadores revelam aumento da inadimplência, dificuldades para pagar empréstimos, necessidade de refinanciamento e endividamento para cobrir necessidades básicas.

Os números relacionados ao crédito oferecem uma dimensão concreta da crise.

A inadimplência total se multiplicou por cinco desde o fim de 2024.

Outro indicador preocupante é o crescimento das renegociações. A quantidade de empréstimos refinanciados dobrou em apenas seis meses, alcançando níveis históricos.

Atualmente, 26,1% dos devedores apresentam algum tipo de atraso. O percentual aumentou 8,8 pontos percentuais em apenas um ano.

Um dos dados mais contundentes apresentados na análise diz respeito à finalidade do endividamento.

Segundo levantamento citado por Fesquet, 33,4% das famílias endividadas recorreram a empréstimos para comprar alimentos ou pagar as despesas correntes do mês.

O crédito, portanto, deixou de funcionar apenas como instrumento para financiar bens de maior valor ou despesas extraordinárias. Para uma parcela significativa da população argentina, passou a ser necessário para garantir o consumo básico.

Quando o dinheiro recebido mensalmente já não é suficiente para cobrir alimentação e outras despesas essenciais, o empréstimo passa a funcionar como complemento de renda. A consequência é a formação de um ciclo no qual novas dívidas são utilizadas para financiar despesas imediatas enquanto parcelas anteriores continuam comprometendo os rendimentos futuros.

O aumento das renegociações demonstra que esse processo já chegou a um ponto crítico para milhões de pessoas.

Os números de Milei

O governo Milei apresenta determinados resultados macroeconômicos como evidência de que sua política está colocando a Argentina no caminho da recuperação.

Setores como energia e mineração aparecem entre os exemplos utilizados para sustentar essa narrativa.

A análise de Fesquet chama atenção, porém, para aquilo que esses indicadores não mostram.

O crescimento da inadimplência, o aumento do refinanciamento e o endividamento para comprar alimentos revelam uma realidade social que não necessariamente acompanha os resultados apresentados pelo governo.

É justamente nesse ponto que a metáfora do rei nu ganha força.

O título escolhido pela editora do Clarín — “A quem interessa fingir que o rei está vestido” — questiona a conveniência política de sustentar uma narrativa de melhora enquanto indicadores diretamente relacionados à vida das famílias apontam para dificuldades crescentes.

A resposta do presidente argentino ao problema do endividamento acrescentou outro elemento à controvérsia.

Milei afirmou que as pessoas que contraem dívidas são responsáveis por suas próprias decisões e tratou a relação entre credores e devedores como um acordo entre particulares.

A posição desloca a questão para o campo da responsabilidade individual.

Os dados sociais, porém, mostram que uma parcela relevante desses empréstimos não está sendo utilizada para consumo supérfluo.

Quando 33,4% das famílias endividadas precisam recorrer ao crédito para comprar comida ou pagar as despesas do mês, a expansão das dívidas também passa a refletir problemas relacionados à renda, ao emprego, ao poder de compra e ao custo de vida.

A inadimplência crescente torna ainda mais evidente a dificuldade para sustentar esse modelo.

Arcebispo alerta para dívida

As consequências sociais da situação econômica também provocaram críticas de setores da Igreja Católica.

O arcebispo de Buenos Aires, Jorge García Cuerva, criticou dirigentes que discutem pobreza sem estar próximos das necessidades concretas daqueles que enfrentam dificuldades.

O religioso também advertiu sobre os riscos do crédito utilizado como solução para a falta de dinheiro.

A preocupação é com a transformação dos empréstimos em uma armadilha capaz de endividar e asfixiar economicamente as famílias.

A advertência ganha peso diante dos números apresentados sobre inadimplência e renegociação de dívidas.

Milhões de argentinos estão atrasados nos pagamentos e um contingente crescente precisa renegociar compromissos assumidos anteriormente.

Empresas fecham

Os problemas econômicos também aparecem no setor produtivo.

O cenário analisado por Fesquet inclui fechamento de empresas e conflitos trabalhistas, fatores que aumentam a insegurança em relação ao emprego e à renda.

Ao mesmo tempo, o governo enfrenta dificuldades políticas e retrocessos em projetos legislativos, adicionando problemas de gestão e comunicação ao desafio econômico.

A combinação desses fatores aumenta a distância entre a mensagem otimista transmitida pelo governo e a percepção de parte expressiva da sociedade.

Para quem depende do salário para pagar alimentação, serviços, aluguel e prestações, a recuperação econômica só se torna concreta quando produz efeitos perceptíveis sobre renda, emprego e poder de compra.

O rei está nu

A ironia utilizada por Silvia Fesquet sintetiza essa contradição.

Na conhecida história, todos enxergam que o rei está nu, mas continuam fingindo que ele veste roupas magníficas. O constrangimento coletivo só termina quando aquilo que estava evidente é finalmente dito.

No caso argentino, os números citados pela editora do Clarín dão materialidade à metáfora.

São 20,9 milhões de pessoas com créditos vigentes. Entre elas, 5,8 milhões acumulam atrasos superiores a 90 dias. A inadimplência se multiplicou por cinco desde o fim de 2024. A proporção de devedores em atraso chegou a 26,1%, enquanto a quantidade de empréstimos renegociados dobrou em seis meses.

Mais significativo ainda é o fato de que 33,4% das famílias endividadas recorreram ao crédito para comprar alimentos ou simplesmente conseguir pagar as despesas mensais.

É diante desse cenário que Fesquet questiona “a quem interessa fingir que o rei está vestido”.

A pergunta coloca no centro do debate argentino a distância entre a recuperação apresentada pelo governo Milei por meio de indicadores macroeconômicos e uma realidade social marcada por endividamento, inadimplência e dificuldades para financiar até mesmo as necessidades básicas.