
A cerimônia marca a chegada de Keiko ao poder após uma disputa acirrada em segundo turno contra Roberto Sánchez, da coalizão de centro-esquerda Juntos pelo Peru.
Em meio ao clima de profunda divisão social e sob a sombra da pior crise de representatividade política da história recente da América Latina, Keiko Fujimori tomou posse nesta terça-feira (28) como a nova presidente do Peru. Falando diretamente do Congresso Nacional antes de caminhar em direção ao Palácio Presidencial na emblemática Praça de Armas, a líder da Força Popular buscou adotar um tom surpreendentemente conciliador e delicado, consciente da fragilidade do cenário institucional do país e da resistência que ainda enfrenta.
O recado principal foi dirigido às regiões do centro e do sul do país, historicamente as mais atingidas pela pobreza extrema e pelo esquecimento estatal no Peru. Keiko reconheceu explicitamente o contraste econômico da nação e assumiu compromissos diretos com a população dessas localidades:
- Educação e Juventude: Prometeu reforçar a educação pública e garantir maior acesso dos jovens à escolaridade formal.
- Aposentados: Comprometeu-se a melhorar os rendimentos e a assistência para a terceira idade.
- Redução da Desigualdade: Admitiu expressamente que, embora o Peru seja um país abençoado por recursos e riquezas naturais, continua marcado por uma profunda e inaceitável desigualdade social.
Eis a mensagem central transmitida no plenário do Congresso: Keiko falou literalmente à oposição que “é hora de unidade” e declarou a intenção de coser as fraturas de um país profundamente fragmentado.
O fantasma da instabilidade política peruana pairou sobre todo o evento. O Peru ostenta o trágico índice de ter tido oito presidentes nos últimos dez anos, em meio a sucessivos impeachments, renúncias e escândalos de corrupção. A despeito do crescimento econômico constante e de índices de baixa inflação, a volatilidade institucional tornou-se a regra no país andino.
Em seu pronunciamento, Keiko fez duas sinalizações políticas cruciais para tentar dissipar as dúvidas quanto ao seu mandato:
- Cumprimento integral da gestão: Afirmou categoricamente que governará durante os cinco anos previstos pela Constituição, prometendo trazer a estabilidade que a população cobra há uma década.
- Distanciamento do legado paterno: Deliberadamente, Keiko não citou o nome de seu pai, o ex-ditador Alberto Fujimori (1990-2000). A omissão foi vista como um movimento tático e delicado para neutralizar o “antifujimorismo” histórico que ainda mobiliza amplos setores da sociedade e para transmitir a mensagem de que governará para a totalidade do país, e não apenas para um clã ou espectro político.
No campo do desenvolvimento e da logística, a nova presidente defendeu a realização e o aceleramento de grandes obras públicas. Keiko garantiu que dará prioridade a investimentos estruturais nas regiões mais pobres do interior, além de dar continuidade e complementar projetos essenciais nas metrópoles, como linhas de metrô e novas estradas integrando todo o território peruano.
Nesse contexto, a presidente destacou a importância de manter o Peru como um aliado diplomático e comercial de primeira ordem do Brasil, prometendo priorizar os pilares da integração regional, do diálogo bilateral, da transparência e da estabilidade jurídica para atração de investimentos.
Apesar das promessas de moderação, integração e pacificação institucional, a posse não transcorreu sem atritos. Nas proximidades da Praça de Armas e em diversos pontos da capital, movimentos sociais, entidades estudantis e organizações de direitos humanos realizaram mobilizações para cobrar justiça pelas vítimas da ditadura dos anos 1990 e sinalizar rigorosa vigilância sobre a nova gestão.





