Registrada como Laurinda de Jesus Cardoso, Laura era filha de antigos camponeses portugueses oriundos da região de Trás-os-Montes. Na infância, viveu em um cortiço no Bexiga, bairro popular da região central de São Paulo.
Uma das trajetórias mais extensas e reconhecidas da dramaturgia brasileira chegou ao fim nesta terça-feira (18): Laura Cardoso morreu aos 98 anos, depois de dedicar 82 anos ao rádio, ao teatro, à televisão e ao cinema. A causa da morte não foi divulgada. As informações são da Folha de S.Paulo.
A atriz deixa uma obra que atravessou diferentes períodos da comunicação e das artes cênicas no Brasil. Sua carreira começou quando o rádio ainda ocupava o centro da vida cultural do país, passou pelos primeiros anos da televisão e alcançou as grandes produções das novelas, do teatro e do cinema nacional.
Registrada como Laurinda de Jesus Cardoso, Laura era filha de antigos camponeses portugueses oriundos da região de Trás-os-Montes. Na infância, viveu em um cortiço no Bexiga, bairro popular da região central de São Paulo.
Aos 16 anos, iniciou a vida profissional na Rádio Cosmos. Participou de programas de auditório, atrações humorísticas e radionovelas, formatos que ocupavam espaço de destaque na programação da época.
Em 1946, já na Rádio Tupi, conheceu o ator, diretor e roteirista Fernando Balleroni, que viveu entre 1922 e 1980 e se tornaria seu marido. Os dois seguiram posteriormente para a Rádio Bandeirantes.
Nesse período, Laura também integrava um grupo de radioteatro que apresentava pequenos esquetes em circos localizados na periferia. Algumas dessas atuações eram realizadas sem pagamento.
A estreia de Laura Cardoso na televisão ocorreu em 1952, no programa “Tribunal do Coração”, da TV Tupi. Por aproximadamente 15 anos, ela fez parte do elenco permanente das produções de teleteatro exibidas ao vivo pela emissora.
A atriz participou de atrações como “TV de Vanguarda”, “TV de Comédia” e “Grande Teatro Tupi”. Os programas levavam adaptações de obras clássicas da literatura para a televisão, em uma época marcada pela transmissão ao vivo e pela ausência dos recursos de gravação adotados posteriormente.
Ao longo dessa fase, Laura trabalhou sob a direção de profissionais como Cassiano Gabus Mendes, Vida Alves, Wanda Kosmo e Walter George Durst. Entre 1966 e 1967, cumpriu uma temporada no Rio de Janeiro, com atuações nas emissoras TV Rio e Excelsior.
Nos últimos anos de funcionamento da TV Tupi, atuou em produções como “Os Inocentes” e “Ídolo de Pano”. A experiência acumulada no rádio e nas apresentações ao vivo ajudou a consolidá-la como uma das intérpretes mais experientes da televisão brasileira.
Laura Cardoso estreou na TV Globo em 1981, na novela “Brilhante”, escrita por Gilberto Braga. Ao longo das décadas seguintes, participou de mais de 20 telenovelas da emissora.
Entre seus trabalhos estão as novas versões de “Mulheres de Areia”, “A Viagem” e “Irmãos Coragem”, exibidas entre 1993 e 1995. A atriz também integrou o elenco de “Explode Coração”, primeira novela gravada no complexo cenográfico conhecido como Projac.
Sua última novela foi “A Dona do Pedaço”, exibida em 2019. Em 2024, Laura esteve entre os nomes homenageados pelo programa “Tributo”, da Globo.
Ao longo de mais de oito décadas de atividade artística, Laura Cardoso defendia a fidelidade à obra criada pelos autores. “Primordial é respeitar o que o autor quer, não se pode desrespeitar o texto que foi escrito”, afirmava.
A atriz também explicava que, depois de compreender a personalidade e o caminho de um papel, o intérprete precisava sustentar aquela construção “para levar a pancada ou o beijo”.
Ao refletir sobre a dimensão menos previsível da atuação, acrescentava: “Sem a bênção dos deuses do teatro é melhor cair fora, porque não dá em nada.”
Essa relação rigorosa com os textos esteve presente em trabalhos realizados para diferentes meios, desde as radionovelas e os teleteatros ao vivo até as produções cinematográficas e televisivas de maior escala.
A estreia de Laura Cardoso no teatro adulto ocorreu em 1959, com “Plantão 21”, de Sidney Kingsley, sob a direção de Antunes Filho. Décadas depois, voltou a trabalhar com o diretor em “Vereda da Salvação”, na montagem de 1993.
A atuação em “Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu”, encenada em 1991 e dirigida por Gabriel Vilella, rendeu à atriz diferentes premiações. Até 2016, ela permaneceu nos palcos com a peça “A Última Sessão”, de Odilon Wagner, na qual interpretava uma psicanalista.
No cinema, viveu um papel de destaque em “Terra Estrangeira”, filme de Walter Salles e Daniela Thomas lançado em 1996. Em 2000, recebeu um prêmio no Festival de Recife por sua atuação como protagonista de “Através da Janela”, dirigido por Tata Amaral.
Laura também venceu a categoria de melhor atriz coadjuvante do Grande Prêmio Cinema Brasil pelo trabalho em “O Outro Lado da Rua”, produção de 2004 dirigida por Marcos Bernstein.
Seu último lançamento cinematográfico ocorreu em 2025, com o curta-metragem “Dona Rosinha”, de Kk Araújo. No filme, interpretou uma mulher idosa abandonada pela filha em um ponto de ônibus, encerrando sua passagem pelas telas com mais um papel centrado na complexidade da experiência humana.





