×

Cúpula militar alertou Toffoli e Aras sobre risco de golpe, diz ex-comandante da FAB

“Cada um aqui tem que acalmar a tensão na sua instituição”, relatou Baptista Júnior ao UOL ao resumir a mensagem levada ao encontro. Segundo ele, havia entre os comandantes a percepção de que o risco de ruptura não estava sendo tratado com...

Cúpula militar alertou Toffoli e Aras sobre risco de golpe, diz ex-comandante da FAB

Ex-comandante da Aeronáutica Carlos de Almeida Baptista afirmou que os três chefes das Forças Armadas chamaram Toffoli, e o então procurador-geral da República Augusto Aras para um encontro reservado em agosto de 2022 diante do temor de um golpe de estado.

O ex-comandante da Aeronáutica Carlos de Almeida Baptista Júnior afirmou que os três chefes das Forças Armadas chamaram o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o então procurador-geral da República Augusto Aras para um encontro reservado em agosto de 2022 diante do temor de um golpe de estado. Segundo o brigadeiro, a cúpula militar queria que cada instituição atuasse para reduzir a tensão que cercava o governo Jair Bolsonaro.

O jantar ocorreu em 24 de agosto, na casa de Baptista Júnior, em Brasília. Participaram o então comandante do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes, o comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, além do chefe da Aeronáutica, Toffoli e Aras. O então ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, não foi convidado.

“Cada um aqui tem que acalmar a tensão na sua instituição”, relatou Baptista Júnior ao UOL ao resumir a mensagem levada ao encontro. Segundo ele, havia entre os comandantes a percepção de que o risco de ruptura não estava sendo tratado com a gravidade necessária por outros setores do Estado. O brigadeiro descreveu o ambiente daquele período como um “fogo cruzado institucional”.

O encontro ocorreu apenas cinco dias depois de Aras afirmar publicamente que não enxergava ameaça golpista no país. Em entrevista publicada pela Veja em 19 de agosto de 2022, o então procurador-geral declarou: “Não vejo nenhuma tentativa de golpe. Ao contrário, vejo as instituições funcionando”. A fala foi dada em meio aos ataques de Bolsonaro ao sistema eleitoral e às críticas feitas pelo então presidente às urnas eletrônicas.

A tensão cresceria depois da derrota de Bolsonaro para Lula. Baptista Júnior e Freire Gomes relataram posteriormente à Polícia Federal e ao STF que o então presidente discutiu com os comandantes medidas de exceção para reverter o resultado eleitoral. O ex-chefe da Aeronáutica afirmou que a resistência do comandante do Exército foi decisiva para impedir o avanço da tentativa e relatou que Freire Gomes chegou a dizer a Bolsonaro que teria de prendê-lo caso insistisse no plano.

Baptista Júnior voltou ao assunto nesta terça-feira (18) ao divulgar seu livro “Eu Disse Não! — Uma Trincheira Antigolpista”, no qual narra os bastidores da crise entre Bolsonaro e a cúpula militar. Ele afirmou que o Brasil esteve “muito próximo” de uma ruptura e que, no fim do governo, o diálogo entre instituições havia praticamente desaparecido.

O brigadeiro também fez críticas à condução posterior dos processos sobre a trama golpista. Disse ver possível influência política na velocidade dos julgamentos e questionou a falta de esclarecimento sobre a origem de algumas minutas discutidas no fim do governo. Ao mesmo tempo, reiterou que uma tentativa de golpe é um fato grave e que sua preocupação é com o cumprimento de todas as etapas do Estado de Direito.