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PF ouve Vorcaro sobre suspeita de contratação de influenciadores digitais para atacar o Banco Central

As investigações apontam que Vorcaro mantinha uma rede de aliados dentro do Banco Central para acompanhar decisões da autarquia e tentar buscar saídas para a crise do Master.

PF ouve Vorcaro sobre suspeita de contratação de influenciadores digitais para atacar o Banco Central

Em 30 de outubro, Vorcaro disse a uma pessoa não identificada que havia recebido informações por meio de “pessoas de dentro do Bacen que são meus amigos e ficaram preocupados”.

A Polícia Federal marcou para quinta-feira (20), em Brasília, o depoimento de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, no inquérito que apura a suspeita de contratação de influenciadores digitais para defender a instituição financeira e atacar o Banco Central. Preso na Papudinha, o banqueiro deve ser ouvido por videoconferência.

Segundo relatório policial, os servidores Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, afastados em janeiro de 2026, são suspeitos de receber vantagens financeiras para auxiliar o banqueiro. A PF afirma que eles teriam repassado informações internas, revisado documentos e orientado Vorcaro sobre medidas que poderiam favorecer o banco.

As conversas analisadas pelos investigadores envolvem discussões sobre reuniões, problemas de liquidez, documentos enviados ao Banco Central e ao Fundo Garantidor de Créditos, além de contatos com integrantes da autarquia. A suspeita central é que os servidores tenham atuado para proteger interesses privados do controlador do Master.

De acordo com a PF, a relação de Vorcaro com Neves de Souza teria começado em 2019. Com Santana, o contato teria se iniciado em 2023. A investigação aponta dezenas de ocasiões em que os servidores teriam fornecido informações ao banqueiro para ajudá-lo a monitorar procedimentos internos do BC.

Em 17 de fevereiro de 2025, Neves de Souza alertou Vorcaro sobre uma operação financeira identificada pelo sistema de monitoramento da autarquia: “Meu caro, teve uma saída de recursos de 488,8 mm do Fundo Reag Growth 95 e uma entrada de 545,5 mm da Master Holding Financeira. Favor verificar e me ligar quando puder pois essa movimentação caiu no filtro da área de monitoramento. Abs.”

Em 30 de outubro, Vorcaro disse a uma pessoa não identificada que havia recebido informações por meio de “pessoas de dentro do Bacen que são meus amigos e ficaram preocupados”. Segundo ele, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e outros diretores estavam sob “pressão máxima” para tomar alguma medida em relação ao Master.

As mensagens indicam ainda que Santana e Neves de Souza revisavam ofícios que seriam enviados pelo Banco Master ao Banco Central e ao Fundo Garantidor de Créditos. Em 3 de novembro, Vorcaro encaminhou ao grupo uma minuta sobre a cessão de carteiras de crédito ao Banco de Brasília e perguntou: “Podem me dar opinião sobre esse pleito?”.

O BRB havia comprado R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consignado do Master, mas suspendeu novas aquisições. Sem novas vendas dessas operações, o banco perdeu sua principal fonte de geração de caixa.

Em 29 de outubro, Vorcaro perguntou se o Banco Central poderia enviar uma carta ao BTG para facilitar a venda de um ativo. Neves de Souza respondeu: “Estou consultando o Ailton aqui”. Depois, atribuiu uma resposta a Ailton de Aquino, diretor de fiscalização do BC: “Ailton respondeu que topa mandar carta nos mesmos moldes da Seguradora. É o teor que a PGBC [Procuradoria-Geral do Banco Central] aprova.”

Em 5 de novembro, o banqueiro pediu apoio para resolver um bloqueio imposto pela Mastercard sobre recursos do Will Bank, integrante do conglomerado Master. “Somente vou conseguir resolver se Bacen der uma batida”, escreveu.

Ailton de Aquino não é investigado. Em maio, ele prestou depoimento à PF como testemunha e relatou vazamentos sistemáticos no caso do Banco Master.

A movimentação no grupo aumentou em 17 de novembro, um dia antes da liquidação do Master e horas antes da operação que prendeu Vorcaro. “Bom dia Daniel! Semana decisiva”, escreveu Neves de Souza pela manhã.

Depois de informar que Aquino não havia atendido, Vorcaro pediu uma videoconferência com o diretor e os dois servidores, “pra eu explicar o roteiro”. Neves de Souza agendou a reunião para 13h30 e enviou o convite. O encontro aparece na agenda pública de autoridades do Banco Central com o título “Solução de mercado – Banco Master”.

Às 17h41, Vorcaro compartilhou uma reportagem sobre a venda do Master a um consórcio liderado pela Fictor. “Ficou boa a reportagem”, respondeu Neves de Souza. O banqueiro escreveu: “Espero que tenha dado tempo [de] Ailton avisar o Galípolo”. Santana respondeu: “Acredito que sim”.

Horas depois, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal enquanto tentava embarcar para Dubai.

A PF também apura um possível jogo duplo dos servidores. Ao mesmo tempo em que conversavam com Vorcaro e discutiam alternativas para aliviar a situação do Master, Santana e Neves de Souza participaram do trâmite de uma denúncia interna contra o banco.

Em 10 de novembro de 2025, o Banco Central elaborou o documento “Relato Sucinto de Ocorrências”, com indícios de crimes envolvendo a administração de fundos pelo Banco Master e pela Reag Investimentos. Segundo o texto, haveria indícios de que operações foram estruturadas “com o objetivo comum de desviar recursos do Conglomerado Master”.

A investigação também reúne suspeitas de pagamentos e benefícios aos servidores. Santana teria sido favorecido por um contrato considerado de fachada para produzir um estudo sobre a entrada de jovens no mercado financeiro. Ao receber um e-mail do servidor aceitando os termos, Vorcaro escreveu ao cunhado, Fabiano Zettel: “Que circo”.

A PF atribui ainda a Neves de Souza a venda de um sítio por R$ 4,8 milhões para uma empresa ligada ao mesmo cunhado de Vorcaro. O servidor também teria tido uma viagem à Disney custeada.

A defesa de Neves de Souza informou que pediu ao Supremo Tribunal Federal o levantamento do sigilo do depoimento do investigado. Os advogados afirmaram que o conteúdo “esclarece todas as afirmações equivocadas” citadas no relatório policial.

No depoimento de quinta-feira (20), Vorcaro deverá ser questionado sobre a suspeita de contratação de influenciadores digitais para defender o Master e atacar o Banco Central em meio às tratativas envolvendo o BRB. O conteúdo das mensagens obtidas pela PF amplia o contexto da investigação ao apontar uma suposta atuação interna em favor do banqueiro na própria autarquia responsável pela fiscalização do sistema financeiro.