
A viagem ocorre a poucos meses das eleições gerais no Brasil e reacende o debate sobre o uso de eventos de massa para promoção pessoal de figuras políticas às custas de favores não declarados.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) embarcou para os Estados Unidos nesta quarta-feira, 22 de junho, abandonando suas obrigações parlamentares em Brasília para acompanhar nos estádios a provável estreia do atacante Neymar na Copa do Mundo de 2026. A viagem ocorre a poucos meses das eleições gerais no Brasil e reacende o debate sobre o uso de eventos de massa para promoção pessoal de figuras políticas às custas de favores não declarados.
A informação foi confirmada pelo presidente do Partido Liberal, Valdemar Costa Neto, que admitiu a aliados que os ingressos para o jogo foram recebidos pelo senador como “presente de um amigo”, cuja identidade ele se recusou a revelar. A falta de transparência sobre a origem do benefício, que inclui acesso a um dos eventos esportivos mais caros e concorridos do planeta, coloca em xeque a conduta ética do parlamentar.
Valdemar Costa Neto afirmou que Flávio não pagou pelas entradas ou pelas despesas de viagem, mas não esclareceu se os custos foram arcados pelo Partido Liberal, por doadores de campanha ou por algum empresário interessado em estreitar laços com o clã Bolsonaro. A legislação eleitoral exige que qualquer doação relevante ou vantagem pessoal seja declarada, e o senador, que já coleciona denúncias de irregularidades financeiras, mantém o ‘amigo’ no anonimato.
A viagem de Flávio ocorre enquanto a CPI das Bets no Senado e outras pautas do Legislativo exigem presença dos parlamentares. O senador não informou se solicitou licença ou se continuará recebendo sua remuneração durante o período em que estiver fora do país. A ausência repentina, em um dia de intensa articulação política pré-eleitoral, expõe a prioridade que o filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro confere à construção de sua imagem pública em detrimento do trabalho legislativo.
A relação do clã Bolsonaro com instituições financeiras como o Banco Master, que já esteve no centro de operações suspeitas envolvendo aliados do ex-presidente, adiciona uma camada de risco reputacional ao episódio. O Banco Master, que tem laços estreitos com dirigentes do PL e patrocina eventos ligados ao bolsonarismo, foi mencionado em investigações anteriores sobre financiamento irregular de campanhas. Ainda que não haja evidência de envolvimento direto do banco nessa viagem, o padrão de favores não declarados remete ao modus operandi histórico da família.

A Copa do Mundo de 2026, sediada nos Estados Unidos, México e Canadá, transformou-se em vitrine política global. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, aposta na associação de quadros do partido a figuras de grande apelo popular, como Neymar, para turbinar o capital eleitoral do bolsonarismo. A imagem de Flávio lado a lado com o jogador do Al-Hilal e da seleção brasileira é uma peça de marketing calculada para as urnas de outubro.
O ‘amigo’ generoso que bancou a extravagância tampouco foi identificado pela direção do PL, alimentando suspeitas de que a viagem pode configurar uma doação velada de pessoa física ou jurídica com interesses junto ao Congresso Nacional. O Tribunal Superior Eleitoral tem reiterado que benefícios com potencial de influenciar o processo político precisam ser registrados contabilmente, sob pena de configurar abuso de poder econômico ou caixa dois.
A assessoria de imprensa do senador Flávio Bolsonaro foi procurada pela reportagem para esclarecer quem pagou os ingressos e os custos da viagem, mas não houve resposta até o fechamento desta matéria. O silêncio, num contexto de eleições iminentes e de um histórico judicial complicado, só reforça a percepção de que o clã Bolsonaro segue operando sob a lógica do segredo e da blindagem política.
A viagem aos Estados Unidos, longe de ser um mero entretenimento esportivo, é um termômetro da impunidade com que certos atores políticos tratam as regras do jogo democrático. Enquanto milhões de brasileiros lidam com a crise econômica e as agruras do dia a dia, o senador troca o Congresso pelo camarote vip da Copa, sem dar satisfações à sociedade que o elegeu.





