
Às vésperas da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, os quatro líderes apresentam a iniciativa “Parceiros pelo Multilateralismo” (P4M), criada para ampliar a cooperação internacional e defender princípios como soberania, integridade territorial, solução pacífica de conflitos e respeito ao direito internacional.
Um artigo publicado neste domingo (20) no Financial Times reúniu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, e o presidente do Quênia, William Ruto, em defesa de uma reforma do sistema multilateral.
Às vésperas da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, os quatro líderes apresentam a iniciativa “Parceiros pelo Multilateralismo” (P4M), criada para ampliar a cooperação internacional e defender princípios como soberania, integridade territorial, solução pacífica de conflitos e respeito ao direito internacional.
Confira o texto na íntegra
À medida que os líderes mundiais seguem para a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, nesta semana, nos deparamos com um paradoxo. A comunidade internacional está mais interdependente do que nunca, ao mesmo tempo em que se torna cada vez mais fragmentada e polarizada.
No entanto, a geopolítica caminha na direção oposta. Em 2025, foram registrados 65 conflitos armados envolvendo Estados, o maior número desde 1946, enquanto os gastos militares globais atingiram o recorde de US$ 2,9 trilhões. O direito internacional está sob pressão. A linguagem das esferas de influência e da política de poder está de volta. As relações econômicas são cada vez mais utilizadas como instrumentos de pressão e coerção, enquanto a desigualdade aumenta, tanto dentro dos países quanto entre eles.
Alguns podem concluir, portanto, que o sistema multilateral fracassou. Em parte, essa crítica é compreensível. Um sistema multilateral que não reflita as realidades de hoje não resistirá ao tempo. Mas a necessidade de cooperação multilateral segue plenamente viva. O mundo do pós-guerra há muito ficou para trás, mas a lógica fundamental que justificou a cooperação multilateral é mais evidente do que nunca.
A emergência climática está superando até mesmo as previsões mais alarmantes. A inteligência artificial avança mais rapidamente do que nossa capacidade de controlá-la. Pandemias podem se espalhar por continentes em questão de semanas, e choques financeiros podem abalar os mercados em poucas horas. Conflitos armados podem desestabilizar regiões inteiras e obrigar milhões de pessoas a fugir de suas casas. Pontos de estrangulamento das rotas marítimas globais, como o Estreito de Ormuz, quando afetados por conflitos, podem paralisar cadeias de abastecimento em todo o mundo. Nenhum país, por mais poderoso que seja, pode enfrentar esses desafios sozinho. A cooperação não é um ato de idealismo; é uma necessidade prática. A questão não é saber se o multilateralismo pode sobreviver, mas como ele deve evoluir para responder às realidades do nosso tempo.
A P4M buscará renovar e fortalecer o sistema multilateral, e não o substituir, além de construir pontes e aproximar países que podem discordar em muitas questões, mas que compartilham o compromisso com os princípios básicos consagrados na Carta da ONU. São princípios inegociáveis, como a igualdade soberana, a integridade territorial, a solução pacífica de controvérsias, a proibição da ameaça ou do uso da força, o direito internacional humanitário, o desenvolvimento sustentável, os direitos humanos e as liberdades fundamentais.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou recentemente que “as superpotências estão descobrindo seus limites”. Acreditamos que a comunidade internacional precisa redescobrir o extraordinário potencial da ação coletiva.
A competição não precisa se transformar em confronto se criarmos canais de diálogo e cooperação. A soberania é fortalecida, e não diminuída, quando os países trabalham juntos para enfrentar desafios comuns. A promoção dos interesses nacionais muitas vezes passa pela ação coletiva diante de desafios compartilhados.
Diante de uma ordem mundial que se transforma rapidamente, conclamamos líderes de todo o mundo a se juntarem a nós na iniciativa P4M, optando pela cooperação em vez da fragmentação, pelo direito em vez do poder e pela responsabilidade compartilhada em vez da divisão.





