
O próprio Bukele ampliou significativamente sua riqueza. Segundo as declarações patrimoniais analisadas, seus bens cresceram 363%, passando de US$ 964,5 mil em 2012 para US$ 4,46 milhões atualmente.
O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, ídolo da família Bolsonaro, de outros expoentes da extrema-direita brasileira e um dos maiores aliados internacionais de Donald Trump, viu integrantes de seu círculo mais próximo multiplicarem suas fortunas em até 713% desde que ele chegou ao poder. Enquanto isso, o país registra um avanço da pobreza extrema e quase 242 mil pessoas passaram a viver nessa condição nos últimos anos.
Os dados foram reunidos em investigações jornalísticas publicadas pelo jornal espanhol El País e analisadas pelo portal The Citizen. O levantamento mostra o surgimento de uma nova elite econômica ligada ao governo, formada por assessores, ministros, parlamentares governistas e familiares do presidente.
O caso mais emblemático é o de Ernesto Sanabria, secretário de Comunicação da Presidência. Seu patrimônio passou de US$ 269,8 mil em 2019 para mais de US$ 2 milhões em 2026, uma valorização superior a 700%.
O próprio Bukele também ampliou significativamente sua riqueza. Segundo as declarações patrimoniais analisadas, seus bens cresceram 363%, passando de US$ 964,5 mil em 2012 para US$ 4,46 milhões atualmente.
Nova elite econômica
Ao menos 21 dos 75 altos funcionários públicos analisados tiveram crescimento patrimonial de até 713% em sete anos ou menos.
Entre eles estão:
* Miguel Kattán, secretário de Comércio e Investimentos e apontado como tio de Bukele, que aumentou sua fortuna de US$ 403 mil para US$ 3,9 milhões;
* Carolina Recinos, chefe de gabinete, cujo patrimônio passou de US$ 182 mil para US$ 1,3 milhão;
* Douglas Rodríguez, presidente do Banco Central de Reserva, que saiu de US$ 153 mil para US$ 1,3 milhão.

Também aparecem parlamentares do partido governista, como José Robles Sorto, Kaleb Navarro e Suecy Callejas.
O ex-ministro da Economia Héctor Dada afirmou ao El País que Bukele “não vinha de uma família rica” e que sua ascensão ao poder criou uma nova elite econômica.
“Quando chegou ao governo, tornou-se parte da elite e substituiu antigos milionários por novos grupos ligados ao bitcoin e às empresas de inteligência artificial”, afirmou.
Para o historiador Héctor Lindo, da Universidade Fordham, o método usado pela família Bukele para acumular riqueza lembra o comportamento das antigas oligarquias salvadorenhas.
Lindo observa, porém, que Bukele não eliminou a velha elite econômica do país, mas passou a coexistir com ela, concentrando seus conflitos principalmente contra a tradicional família Simán.
FMI pressiona por transparência
As declarações patrimoniais só vieram parcialmente a público após pressão do Fundo Monetário Internacional (FMI), que condicionou um empréstimo de US$ 1,4 bilhão à adoção de medidas de transparência fiscal.
Mesmo assim, segundo o El País, o portal criado pelo governo oferece informações incompletas e de difícil acesso. Funcionários ouvidos sob anonimato afirmaram que o sistema permite que praticamente qualquer informação seja declarada sem mecanismos efetivos de verificação.
Centro histórico vira negócio milionário
A investigação também aponta que o centro histórico de San Salvador tornou-se um dos principais ativos econômicos do projeto político de Bukele.
Durante o regime de exceção, milhares de vendedores ambulantes foram retirados da região sob ameaça de prisão, abrindo espaço para grandes redes internacionais, como Starbucks, Pizza Hut e Marriott.
A valorização imobiliária beneficiou diretamente empresários próximos ao governo e familiares do presidente. Os irmãos Karim e Yuseff Bukele, por exemplo, adquiriram imóveis avaliados em milhões de dólares, assim como investidores ligados ao mercado de criptomoedas.
Enquanto a riqueza do círculo presidencial aumenta, os indicadores sociais seguem na direção oposta.
Dados do Banco Central de El Salvador mostram que, entre 2019 e 2024, 241.927 salvadorenhos passaram a viver em situação de pobreza extrema.
Para o ex-ministro Héctor Dada, o país vive uma realidade de forte concentração de renda.
“É uma ilha de riqueza cercada por um mar de pobreza. No fim, quando deixarem o poder, apenas Bukele e sua família permanecerão como parte da oligarquia”, afirmou.





