
“Impor agora uma tarifa que seria difícil de reverter — premiando aqueles que são responsáveis pelas ações em questão e punindo aqueles que suportaram suas consequências — seria o pior momento possível para agir”, afirmou Flávio Bolsonaro.
A atuação de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em audiência sobre tarifa dos Estados Unidos foi avaliada como inócua e frustrante por empresários, gestores e analistas do mercado financeiro, que esperavam uma defesa mais técnica dos interesses comerciais brasileiros diante da ameaça de novas sobretaxas de 25% sobre produtos importados do Brasil, segundo informou o jornal O Globo.
A expectativa entre empresários e representantes de segmentos afetados era que Flávio apresentasse dados sobre comércio bilateral, impactos sobre cadeias produtivas, custos para consumidores e eventuais prejuízos a empresas dos próprios Estados Unidos. Segundo relatos feitos ao jornal, porém, o discurso acabou assumindo tom mais político do que técnico.
Empresários ouvidos sob condição de anonimato classificaram a fala como “ruim” e afirmaram que o senador abordou o tema das tarifas de maneira superficial. Em cerca de cinco minutos de manifestação, Flávio Bolsonaro mencionou temas como corrupção no Brasil, o sistema de pagamentos Pix e o uso de cartões de crédito. O Pix está entre os pontos questionados pelo governo norte-americano, sob o argumento de que o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos afetaria empresas de bandeiras de cartões dos Estados Unidos.
No mercado, a leitura predominante foi a de que o argumento eleitoral dificilmente terá peso relevante em uma decisão do USTR, órgão responsável por formular e coordenar a política comercial dos Estados Unidos. A avaliação é que, apesar de eventuais erros nos dados usados pelo governo norte-americano, a tramitação tem caráter técnico e tende a considerar principalmente informações apresentadas por empresas, associações setoriais e especialistas.
Daniel Teles, sócio da Valor Investimentos, afirmou que o rito da audiência permite a participação de diferentes interessados, incluindo associações empresariais, técnicos, companhias e representantes políticos. Para ele, Flávio tentou aproveitar o calendário eleitoral para se colocar como interlocutor com Washington.
“Ele sinaliza que ter um bom relacionamento com o governo americano pode ser bom para o Brasil, caso ele ganhe as eleições. Mas acho que o impacto da participação é pequeno. Não acredito que ele vai persuadir o USTR mais do que empresas, que estão levando dados e fatos. Mas também não atrapalha. Eu diria que é neutra a participação”, avaliou.
“Nem ajuda, nem prejudica, considerando o âmbito da sessão 301. Surte mais efeito a pressão que as empresas americanas estão fazendo para não taxar o país. Mas o impacto para a candidatura de Flávio é péssimo”, afirmou o analista.
Bittencourt disse ainda que Flávio Bolsonaro assumiu para si a responsabilidade de tentar resolver um tema complexo e acabou produzindo material que poderá ser explorado por adversários na disputa presidencial.
“Se não havia certeza que um ato dele poderia se converter num benefício político para a campanha, então que não fizesse. Isso vai acabar sendo usado contra. Tenho ouvido na Faria Lima avaliações, diante disso, que a candidatura de Flávio pode não crescer entre novos eleitores”, declarou.
“Não tem impacto a participação dele. A proposta do Flávio, que é o adiamento das tarifas, não deve ser acolhida pelo USTR, que é um órgão técnico, que se baseou num estudo, ainda que com erros, para impor essas tarifas ao Brasil. Esse órgão não vai tomar uma decisão de comércio importante apenas porque vai acontecer uma eleição no Brasil”, disse Maílson.
O ex-ministro ponderou, no entanto, que o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem histórico de imprevisibilidade e citou que ele “até na Copa do Mundo interferiu”. Ainda assim, Maílson avaliou que a movimentação pode se transformar em um problema político para Flávio, caso as tarifas sejam efetivamente aplicadas.
A preocupação entre interlocutores do mercado é que, se o tarifaço for associado a um embate político interno do Brasil, o governo Lula poderá reforçar o discurso de defesa da soberania comercial e dos setores produtivos nacionais. Nesse cenário, a oposição — e especialmente Flávio Bolsonaro — poderia ser responsabilizada politicamente por eventuais danos a exportadores, empregos e preços.





